A vitória da AfD na Saxónia-Anhalt tornou-se o tema central do comentário político no mundo euro-americano. E com razão. Como é que um pequeno partido político eurocéptico, fundado em 2013, acusado pela comunidade mediática das mais radicais práticas políticas e ideológicas – xenofobia, racismo, neonazismo, ultra-direitismo –, classificado como pró-russo e anti-semita, com notação de organização extremista de direita pelos serviços de segurança, consegue ganhar 44% dos votantes, ficar em primeiro lugar e estar em condições de governar um Estado da Federação alemã?
A primeira razão é clara, e aplica-se a todos os partidos e coligações da direita nacionalista europeia e americana: o fracasso dos partidos do sistema. Na Alemanha, como em França, em Itália, no Reino Unido, os partidos tradicionais, centristas, à direita e à esquerda, falharam. E por isso, num primeiro gesto de protesto os eleitores procuraram aqueles que estão mais fora e mais longe do “sistema”.
Em Itália, o poder foi para uma coligação entre os Fratelli, os nacionais-conservadores de Giorgia Meloni, a nacional-populista Legha e os conservadores-liberais da Forza Italia. Em França, o Rassemblement National de Marine Le Pen vai crescendo, de ano para ano, de eleição para eleição, numa longa jornada que pode trazer grandes surpresas em 2027. No Reino Unido, a instabilidade instalou-se no país do bipartidarismo rotativo, com sete primeiros-ministros em dez anos. E é uma força nova, o Reform Party, de Nigel Farrage, que, segundo as sondagens, pode suplantá-los.
A AfD, Alternativa para a Alemanha, é a força que representa o anti-sistema na Alemanha, mais de 30 anos depois da Reunificação, num tempo em que se desvaneceu o milagre alemão na economia, entre restrições climáticas, imigração descontrolada e concorrência industrial chinesa.
Perante esta linha de protesto, os partidos do sistema, do Centrão à extrema-esquerda, optaram, não por corrigir as políticas, mas por denegrir as alternativas. Na Alemanha, com a AfD, a linha foi equipará-la ao hitlerismo, um movimento racista biológico, que nada tem que ver com o novo partido, a não ser pelo facto de serem ambos nacionalistas.
De resto, os dirigentes da AfD têm vindo a referir criticamente a redução do nacionalismo alemão ao nazismo, reclamando-se do nacionalismo de Bismarck e não de Hitler. É certo que, para a AfD, como para todos os partidos nacionalistas europeus, dos mais conservadores aos mais populistas, a nação é o valor distintivo da sua identidade ideológica; e da defesa da nação vêm outras características ideológicas e políticas - como o culto da História, da Terra e dos Mortos e as políticas restritivas de imigração, sobretudo da imigração não-integrável no tecido social.
Ultrapassagem pela esquerda?
A AfD ganhou as eleições na Saxónia-Anhalt e tem 39 deputados; mas, para governar, tem de encontrar mais três parlamentares para compor uma maioria. Pode, para isso, procurar aliciar deputados do centro-direita conservador dispostos a transpor as linhas vermelhas, ou tentar ultrapassar pela esquerda o cordão sanitário, negociando com um partido como a Aliança Sahra Wagenknecht, que tem o nome da sua criadora e líder, a dissidente do Die Linke que, em 2024 criou um partido de esquerda em economia, mas conservador e realista no que é importante: os costumes, a imigração e a política externa.
Na quarta-feira, 9 de Setembro, depois de indicações iniciais em contrário, a direcção da BSW na Saxónia-Anhalt declarou-se disponível para conversações com a AfD.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia