Adoro bacalhau e caldo verde: devo ter sido portuguesa numa vida anterior

Zeynep Tinaz Redmont

Jornalista turca a viver em Portugal, publica 'Lisbon Diaries' no Substack

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Um artigo publicado no fim de semana num importante jornal britânico magoou-me profundamente. Sinto-me pessoalmente atacada. Suspeito que os portugueses concordariam, embora felizmente duvide que este jornal faça parte da sua dieta mediática diária.

Aqui está:

O The Sunday Times, o jornal dominical de formato broadsheet mais vendido do Reino Unido, enviou a crítica Rachel Johnson a Lisboa como convidada de uma das principais empresas de turismo de Portugal, e ela declarou que tanto o bacalhau como o caldo verde eram “nojentos”.

Escreveu: “A vida é demasiado curta para bacalhau salgado”, antes de acrescentar: “…a comida é uma espécie de alimentação infantil mediterrânica, preparada e servida de forma simples e insossa… As batatas são cozidas, parece haver muito puré e concordemos que o prato nacional, o bacalhau, e o igualmente omnipresente caldo verde… são nojentos.”

Por onde começar?

Os portugueses são reis e rainhas do bacalhau, um sabor adquirido e refinado. Diz-se que existem 365 maneiras de o cozinhar e ela sugere que todas as variações devem ser “evitadas”.

Eu adoro bacalhau à Brás, bacalhau assado, bacalhau de Natal, especialmente as versões servidas com compota de cebola roxa, que acrescenta a doçura suficiente para nos fazer parar a meio da garfada em admiração.

E sempre que o estômago dá horas, entro no café português mais próximo e peço pastéis de bacalhau. Fritam-nos na hora e veem-me devorá-los enquanto um sorriso se instala lentamente no meu rosto.

Lamento que a Sra. Johnson tenha perdido tudo isto e corrido para uma conclusão fácil.

Quanto ao caldo verde, a clássica sopa portuguesa, é nutritiva, saudável e profundamente reconfortante. Chamem-lhe comida para a alma. Mas não lhe chamem NOJENTO.

Até Inglaterra, onde talvez a gastronomia nem sempre seja a principal atração, descobriu a couve-galega há muito tempo e utiliza-a amplamente. Porque é que, de repente, se torna ofensiva quando entra numa sopa deliciosa?

Depois ela ataca as batatas.

Claramente ninguém lhe apresentou as batatas a murro, delicadas batatas esmagadas e assadas com alho e azeite.

Já me está a crescer água na boca.

Para ser justa, ela admite que “devorou” uma travessa mista de peixe grelhado e “camarões carnudos”, recomendando aos leitores que se fiquem pelas “sardinhas frescas e suculentas”.

Uma pequena pista de que quase descobriu a gastronomia portuguesa, mas se recusa a admiti-lo.

A viagem, no entanto, começou mal. Passou mais de duas horas retida no aeroporto devido ao novo sistema de entradas da União Europeia. (Lembrem-se do Brexit!)

Depois, um cão pequeno mordeu-a no campo de golfe. Receio que o animal tenha sentido vibrações negativas.

Ela chegou mesmo a escrever que a mordida pareceu pior do que as suas reportagens nos campos minados da Ucrânia, antes de brincar dizendo que preferia que o cão tivesse mordido o Cristiano Ronaldo.

Os seus elogios, em tom irónico, ao clima, ao vinho, à hospitalidade e aos azulejos portugueses não conseguem salvar o conteúdo ofensivo.

Uma longa fila no aeroporto deixou claramente um amargo de boca.

Suspeito que tenha saído de Portugal até sem devorar um pastel de nata.

As minhas condolências.

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