Adolescentes e Inteligência Artificial generativa: entre a companhia e o risco

Tânia Brandão

Professora do Ispa – Instituto Universitário

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Imagine que o seu filho adolescente, depois do jantar, se fecha no quarto e passa horas a conversar. Não com um amigo da escola, não com um primo, não num grupo do WhatsApp. Com um chatbot. Uma Inteligência Artificial generativa que responde sempre, nunca se cansa, nunca julga e está disponível a qualquer hora. Para muitos jovens, isto já não é um cenário possível, é rotina.

Ferramentas como o ChatGPT, o Character.AI ou o Snapchat MyAI tornaram-se presença habitual nos telemóveis de adolescentes. E o uso vai muito além dos trabalhos de casa: servem para desabafar, pedir conselhos, procurar companhia ou simplesmente ter alguém que "oiça" sem interromper. Em Portugal, segundo dados recentes do EU Kids Online, 85% das crianças e jovens entre os 9 e os 17 anos já utilizam Inteligência Artificial generativa para diferentes fins, um valor acima da média europeia. Não estamos, portanto, a falar de uma tendência distante.

Convém começar pelo que é justo reconhecer: nem tudo nesta relação é preocupante. Alguns jovens referem sentir-se mais à vontade para falar com um chatbot do que com um adulto, sobretudo quando receiam ser julgados. Além disso, há estudos que mostram que, quando fazem perguntas sobre saúde mental, os adolescentes consideram as respostas destes sistemas mais claras e práticas do que as de profissionais de saúde. Há ainda estudos que sugerem que esta interação pode contribuir, pelo menos a curto prazo, para aliviar sentimentos de solidão ou ansiedade.

O problema começa quando confundimos disponibilidade com compreensão. Um chatbot não tem empatia. Não sente. Não conhece o contexto de vida de quem lhe escreve. As suas respostas são geradas para parecerem adequadas, e na maioria das vezes parecem-no. Mas podem ser incorretas, insensíveis ou até perigosas, sobretudo quando o jovem do outro lado está numa situação de vulnerabilidade real. Estes sistemas são desenhados para concordar com o utilizador e para manter a conversa a fluir, o que torna a interação envolvente, mas também pode enfraquecer o sentido crítico perante o que se lê.

Há um risco adicional que merece atenção: os adolescentes tendem, por vezes, a confiar na informação gerada por estes sistemas sem questionar a sua exatidão ou os seus limites. Quando o "amigo digital" começa a ocupar o espaço que seria das relações humanas, as consequências podem ser reais: menor prática de competências sociais, menor tolerância à frustração que vem das relações verdadeiras, e um conforto ilusório que não prepara para a complexidade do mundo.

Nada disto significa que a solução seja proibir. Tal como ensinámos os nossos filhos a atravessar a rua antes de os deixarmos sair sozinhos, precisamos agora de os preparar para se orientarem neste novo território. E isso implica falar com eles, sem alarme, mas com franqueza: sobre o que estes sistemas são e o que não são, sobre a diferença entre uma resposta gerada por um algoritmo e o conselho de alguém que os conhece, sobre a importância de manter relações que exijam esforço, paciência e reciprocidade.

A Inteligência Artificial generativa veio para ficar. Os nossos filhos vão crescer com ela. A questão já não é se a utilizam, mas como. E essa resposta depende, em grande parte, de nós.

Nota. Este texto contou com apoio de uma ferramenta de Inteligência Artificial (Claude) para revisão linguística e melhoria de clareza. O conteúdo, a argumentação e a revisão final são da exclusiva responsabilidade da autora.

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