No último sábado, no desfile do 25 de Abril, a Iniciativa Liberal voltou a ser insultada na Avenida da Liberdade. No dia em que Portugal celebra o fim da imposição política, há quem considere seu dever impor quem pode celebrar. Que a nossa presença incomoda. Que a festa tem donos e que esses donos, e só esses donos, decidem quem é bem-vindo. Isto acontece todos os anos. Este ano podia ter sido pior. Houve quem se preparasse para atacar o desfile com um engenho incendiário. A intolerância não fica pela palavra, escala. A Associação 25 de Abril, responsável pela organização do desfile, sabe disso. E continua sem condenar o ambiente a que a Iniciativa Liberal é sujeita, ano após ano.Há aqui uma contradição que merece ser dita em voz alta. As pessoas que insultam a Iniciativa Liberal no 25 de Abril fazem-no em nome da liberdade. Acham que defender a liberdade significa decidir quem pode celebrá-la. Não percebem a ironia. Ou percebem e não lhes importa.Porque há uma certa casta política que aprendeu a usar Abril como escudo. Que invoca a revolução para bloquear reformas, para travar mudanças, para manter o país amarrado à sua visão única do que Portugal deve ser. Que chama traição a quem quer um Estado mais eficiente, uma economia mais livre, uma vida com mais escolhas. Isso não é respeitar Abril. É aproveitar-se de Abril.A maior prova desta hipocrisia está no que a esquerda escolhe celebrar e no que deliberadamente apaga. O 25 de Abril foi a luta contra o fascismo. Mas o 25 de Novembro foi a luta contra o comunismo. E essa, a esquerda não celebra. Porque reconhecê-la obrigaria a admitir que a liberdade que hoje temos foi conquistada também contra a esquerda que queria uma ditadura diferente, mas ditadura na mesma. A democracia portuguesa nasceu duas vezes. Quem só reconhece um dos nascimentos não está a honrar a história. Está a falsificá-la. Porque sem o monopólio de Abril perde a principal arma que tem para calar quem pensa diferente. Abril não se fez para que nada mudasse. Fez-se precisamente para que tudo pudesse mudar. Para que cada geração tivesse o direito de exigir mais ao país. Abril quis um país livre. Livre também de quem, em nome de Abril, pretende que nada mude. Há uma geração que sente isso na pele. Não viveu a ditadura. Vive a estagnação. Vive salários que não chegam. Vive casas que não consegue comprar. Vive num país que a empurra para fora. E percebe, porque vive as consequências, que há quem precise que o país continue assim. Quem se alimenta da frustração e da dependência. Quem precisa de portugueses sem saída para continuar a existir. Um país que funciona, pessoas livres e independentes, é a maior ameaça que conhecem. Por isso bloqueiam as reformas. Por isso travam as mudanças. Por isso insultam na Avenida quem ousa dizer que há outro caminho.Lutar por um país melhor, com coragem e sem medo, é o mais fiel cumprimento do espírito de Abril. Porque Abril não foi uma chegada. Foi uma partida. E 52 anos depois, o caminho ainda está por fazer. A rua é de todos. E a liberdade, se não for de todos, não é liberdade nenhuma.