Desde 2022 com uma guerra no território, no meio de uma batalha tarifária com a maior economia do mundo, com uma crise de imigração em vários países e uma outra económica à espreita, a Europa ainda é, apesar de tudo isto, lugar de esperança. É isso que nos mostram os dados do Eurobarómetro de Primavera, que evidenciam que, apesar do nosso pessimismo, a Europa é sinónimo de estabilidade – como pode ler na página 23 desta edição do DN.Informação que contrasta com alguma outra que tem sido divulgada nos últimos dias, sobretudo através das redes sociais, onde vários criadores de conteúdos têm tentado mostrar como os europeus que se encontram nos EUA, para assistir ao Campeonato Mundial de Futebol, estão “encantados” com a vida naquele país.“As pessoas chegam aqui e veem que um trabalhador de uma loja pode receber um salário de seis dígitos, ter uma casa muito maior e um carro de gama superior, e percebem que os media as estão a enganar”, ouvi recentemente num vídeo publicado numa rede social. São os mesmos europeus que acreditam que a América é mesmo a terra de todas as oportunidades – não estarão totalmente enganados – e que ignoram que é, também, nos EUA, que as pessoas morrem por falta de dinheiro para comprar medicamentos ou ter assistência médica e que é também o país (por exemplo) com mais ataques mortíferos em escolas.. Para termos ideia, entre 1999 e 2023, a América do Norte concentrou 40% dos tiroteios escolares do mundo, sendo também o que regista a maior taxa anual de tiroteios por número de estudantes, segundo a Worldmetrics.org.No mesmo sentido, por cada história de ascensão rápida, salários elevados e consumo abundante há tantas (ou mais) outras de precariedade laboral, ausência de rede pública de proteção, desigualdade extrema e violência armada - além das tentativas de pressão sobre órgãos de soberania, como aconteceu recentemente com Lisa Cook, governadora da Reserva Federal Americana, que Donald Trump tenta afastar, num movimento sem precedentes por parte de um presidente norte-americano.À primeira vista, pode parecer que estas informações não têm razão para estar juntas, mas a verdade é que tudo é contextual. A perceção de segurança, prosperidade ou oportunidade não existe isolada e é moldada por narrativas, experiências individuais e, sobretudo, pela forma como comparamos realidades que não são diretamente comparáveis. A Europa, com todos os seus defeitos, crises e contradições, continua a ser um espaço onde o Estado Social atenua desigualdades, onde a Saúde é um direito (mesmo com os problemas crescentes, como também contamos nesta edição do DN) e não um produto, e onde a Educação, apesar de pressões constantes, permanece relativamente protegida de violência extrema. E creio que concordamos todos com o facto de que deixar os nossos filhos na escola com a certeza de que os vamos encontrar seguros, ao final do dia, é de um valor imensurável.."A estabilidade europeia não é garantida, como temos vindo a sentir sobretudo ao longo da última década, e tem de ser construída e reforçada diariamente.”.Não significa isto que o Velho Continente está imune a desafios significativos. A estabilidade europeia não é garantida, como temos vindo a sentir, sobretudo ao longo da última década, e tem de ser construída e reforçada diariamente. Mas é precisamente pela existência deste esforço coletivo, institucional e democrático que a Europa se mantém, aos olhos de muitos, como um porto seguro num mundo cada vez mais fragmentado. A Europa, mesmo em crise, continua a oferecer algo que muitos países desenvolvidos já não garantem: previsibilidade. E num mundo onde a incerteza se tornou regra, essa previsibilidade é, talvez, o recurso mais valioso que temos.============2024 - Credito (6030998)============leonardo negrão============2024 - OPINIÃO - Corpo Texto CAP_0030 (6030891)============