A vida aperta, a revolta cresce. E agora?

Paula Marques

Consultora e formadora Direitos Humanos e Sociais

Publicado a

Gronelândia, Rússia, Alemanha. Três acontecimentos que parecem pertencer ao mundo distante da geopolítica e das grandes potências, mas que não estão assim tão longe de nós. Porque acabam sempre por chegar à vida concreta: ao preço das coisas, aos impostos, aos serviços públicos, ao emprego e à segurança com que cada pessoa olha para o futuro.

Na Gronelândia, os Estados Unidos reforçam a sua presença militar e capacidade extrativa. Fala-se tanto de autonomia estratégica europeia e soberania, mas onde está essa autonomia quando se reforça a dependência militar e estratégica de Washington?

Na Rússia, também houve eleições. Mas votar não basta para existir democracia. Num contexto de forte controlo político, vozes e candidatos contrários à guerra na Ucrânia foram impedidos de concorrer. Eleições formais não garantem pluralismo nem liberdade de escolha e a militarização da Duma só agrava preocupações.

Depois das eleições alemãs, é fácil reduzir tudo à aritmética: quem ganhou, quem perdeu, que coligações são possíveis. Mas, por detrás dos números, há pessoas. O descontentamento alemão não nasceu nas urnas. Nasceu na vida quotidiana, no custo da habitação, no aumento das rendas, na pressão sobre os salários, na perda de poder de compra e na sensação de que trabalhar deixou de ser suficiente para garantir tranquilidade e futuro.

Ao mesmo tempo, aumenta o investimento militar e a despesa com armamento. E surge uma pergunta inevitável: se há dinheiro para a despesa militar, porque parece nunca haver dinheiro suficiente para habitação, saúde, educação ou proteção social?

É neste contexto que importa falar da grande coligação entre CDU e SPD. Há décadas que governam o país num trilho neoliberal que, como está à vista, tem levado ao empobrecimento. A sucessão de grandes coligações alimentou a percepção de que a alternância deixou de significar uma verdadeira alternativa. Quando os grandes partidos permanecem presos ao mesmo centro político e as diferenças se tornam pouco visíveis na vida concreta, instala-se uma pergunta perigosa para qualquer democracia: para quê votar se a minha vida continua difícil?

Quando cresce a extrema-direita, não basta perguntar como foi possível. É preciso perceber que frustrações e problemas concretos estão a ser capturados por esse discurso. Mas tal como aconteceu em Berlim, há quem encontre alternativa numa esquerda firme que não tenha medo de afirmar a radicalidade democrática da defesa do Estado Social, do controlo dos preços especulativos, da igualdade, da habitação pública.

Mas importa rejeitar a cómoda narrativa dos “extremos equivalentes”. Uma extrema-direita que estimula o ódio, transforma migrantes e minorias em bodes expiatórios, projetos assentes na exclusão, no nacionalismo étnico e na negação de direitos fundamentais não é equivalente a uma esquerda que, com uma força radical, responde ao descontentamento através do reforço dos direitos sociais, habitação pública, serviços públicos, controlo dos preços especulativos, salários dignos e igualdade.

Mas não basta dizer às pessoas para não votarem na extrema-direita. É preciso compreender porque estão zangadas e construir alternativas que melhorem concretamente as suas vidas.

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