A verdade dos factos e o que ninguém quer debater: a Educação para os pobres (de espírito)

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Desde 2017 que a média nacional a Português vem descendo regular e consolidadamente. Literatura Portuguesa é a disciplina com a média mais baixa de todas. Neste ano de 2026, a média de negativas a Português foi de 29,7%. No caso de Literatura, tendo-se apresentado a Exame nesta disciplina 900 alunos, a média é de 9,6 valores.

Com efeito, se virmos igualmente as médias de outras disciplinas da área de Humanidades – Filosofia e História – veremos que há, desde 2017, um padrão geral de abaixamento das competências de escrita e de leitura por parte dos alunos portugueses. Mesmo os melhores alunos portugueses de hoje, como confirma o PIRLS, têm problemas de literacia literária e, em bom rigor, não conseguiriam responder de forma proficiente a questionários dos exames destas disciplinas, e nomeadamente questionários de Exames de Português, tais quais esses exames apresentavam nos anos 90.

Em 2017, no Grupo III do Exame de Português, pedia-se que se reflectisse “num texto bem estruturado com o máximo de 350 palavras” (era no tempo do IAVE), sobre “Se, para uns, a conquista de uma vida melhor é o principal objectivo, e, para outros, a luta pelo bem comum se sobrepõe aos interesses individuais”. Era necessário, a partir deste dilema, ponderar o seguinte: “Será que estas duas perspectivas se podem conciliar na sociedade actual?”

Em 2026, nesse mesmo Grupo III, pede-se, nesta 2.ª fase, o seguinte: que o estudante, depois de 12 anos de escolaridade obrigatória, “defenda uma perspectiva pessoal sobre o contributo das experiências pessoais e dos conhecimentos adquiridos na escola para o enriquecimento da visão que cada indivíduo constrói do mundo”. Trata-se, a meu ver, da prova mais cabal de incompetência científica por parte de quem concebe este exame.

Neste grupo III o que está em causa é avaliar a capacidade de argumentação perante um tema ou problema e, ao mesmo tempo, medir a literacia de escrita. Com questões deste género, que convidam ao discurso mais subjectivo e impressionista, opinativo e acrítico, o que se avalia? Que leituras e que competência de discurso argumentativo têm os alunos do 12.º de ter se o que lhes é perguntado é de um primarismo e de uma infantilidade ímpares?

Comparemos e analisemos agora o Exame Nacional de 1997 com a idiotice de exames nesta disciplina que, de há uns bons 10, 15 anos a esta parte têm condicionado a prática e a qualidade das aulas de muitos professores, infantilizando e facilitando processos de ensino-aprendizagem. Uma pergunta prévia, no debate sobre os Exames, no seu todo, deveria ser feita: estamos a preparar bem os alunos do Secundário para a Universidade, independentemente dos cursos? A resposta é óbvia, mas dói ouvir: o que temos vindo a formar é toda uma geração de estudantes que, no fundo, sabem que para terem acesso ao Ensino Superior (soa a caricatura esta expressão: “superior”…), nada têm de ter lido e não têm de escrever, de facto, nada de especial. Vejamos o Exame de 1997, 1.ª Fase/ Português A.

Constava de um poema de Fernando Pessoa, o ortónimo: “Bóiam leves, desatentos”, texto de forte sugestão poética, já pelas metáforas (“Bóiam leves, desatentos, / Meus pensamentos de mágoa, / Como, no sono dos ventos, / As algas, cabelos lentos / Do corpo morto das águas.” (1.ª estrofe). Para além da melopeia dos versos e da correspondência pensamentos/ cabelos (de possível raiz baudelaireana e remetendo para o mito de Ofélia, tão do agrado da esteais simbolista-decadentista que o moderno Pessoa aproveita), há neste poema – e isso pedia-se no questionário de 1997 – uma associação entre pensamentos-sono-corpo morto-algas (águas paradas) e a existência dos próprios pensamentos que, fora do sujeito, bóiam “como folhas mortas / À tona de águas paradas”. O poema escolhido para avaliar a competência de leitura era, em 1997, indiscutivelmente mais complexo que qualquer texto que hoje os fazedores desta miséria de exames escolhem.

Veja-se: É o “sono de ser”, é o nada como problema moderno para um “eu” a braços com os seus pensamentos “de mágoa”, o problema que o estudante tinha de compreender. Isso subentende-se no que era pedido no Grupo I: “Elabore um comentário global do texto que acabou de ler, focando os seguintes tópicos: a) marcas de objectividade/ subjectividade na expressão lírica do “eu”; b) campos semânticos da fragmentação e do negativismo; c) recurso estilísticos e sua expressividade; d) construção da musicalidade; e) marcas características da poesia ortónima pestana.” Que aluno conseguiria, hoje, em 2026, fazer semelhante comentário crítico? Nenhum – digo-o com lamento, mas sem receio.

Note-se, para além do mais, que não havia quaisquer constrangimentos de limitação mínima ou máxima de palavras! O que se avaliava (e classificava) era mesmo a literacia escrita, as competências do ler texto complexo e do escrever crítica e analiticamente.

Hoje, no Exame de Português, à saída de 12 anos de escola, que poema se escolheu? Um poema de Eugénio de Andrade que comparece já no 3.º ano do ciclo primário!!! E que dizer do questionário de 2026? Perguntas sobre o que é que, por detrás das palavras de um poema de Eugénio de Andrade e de um outro poema de Caeiro, o leitor pode adivinhar quanto a estados de alma. É de um impressionismo e de um primarismo atroz.

O que hoje se pede aos alunos é que expendam textos de cariz personalista, absolutamente subjectivos, com a agravante de terem de recorrer a 350 palavras, pois todos sabemos: é uma geração com uma tal falta de linguagem e de capacidades de análise de texto literário (mas também de qualquer tipo de texto) que, se tivessem de escrever sem limite imposto, provavelmente arriscávamo-nos a não termos nenhuma redacção para ler. Ao menos assim, com a indicação de 350 palavras, os estudantes sabem que têm de fazer o esforço por encher de palha o Grupo III.

Ninguém, na verdade – se for professor honesto, se for um aluno com o mínimo de consciência crítica, se for um pai minimamente exigente – pode considerar que estes Exames Nacionais avaliam (falo de Português, mas o mesmo podemos dizer de Exames de História, de Filosofia ou de Geografia) seja o que for de verdadeiramente útil e verdadeiro. Não há utilidade nestes Exames de Português, bem como de outras disciplinas quando em mais de 70% do exame o estudante nada tem de escrever.

As médias baixíssimas a Português e a Literatura espelham as consequências de mais de 15, 20 anos de políticas que puseram de parte a importância das Humanidades na formação dos estudantes. Mesmo os alunos de ciências têm hoje dificuldades reais de expressão escrita e de compreensão dos textos nas suas áreas específicas porque lêem pouco ou nada e porque – e disto igualmente ninguém fala –, na prática didáctica, se perdeu o hábito de analisar cientificamente um texto.

Estudantes, filhos da pandemia, do TikTok, de uma vida de que estão ausentes a curiosidade e a sede de saber, o mistério e a imaginação, os alunos portugueses oscilam, como digo há mais de uma década, entre a letargia e a raiva, entre o estado amorfo das suas faculdades cognitivas e a explosão instintiva de frases sem nexo, sem verbos (“posso água?”), sem qualquer construção lógica e sem quaisquer referências culturais quando argumentam, quando pretendem debater. Vemos isso na Faculdade, vemos isso no Ensino Secundário..

Nota final: o que se pretendia no Exame de 1997 no Grupo II, na 2.ª parte do dito momento de avaliação das competências? Isto: “Elabore uma dissertação em que aborde de forma desenvolvida e fundamentada as afirmações sobre a poesia de Cesário Verde aqui transcritas."

E que texto era esse que o aluno de 1997 tinha de comentar? Este: “Na história da poesia da cidade, os poemas típicos de Cesário Verde são algo de inteiramente novo, pelo amor juvenil e constante à realidade concreta, vista com olhos de artista plástico, transposta em séries de instantâneos claros, exactos, flagrantes. Em Cristalizações, Num Bairro Moderno, O Sentimento dum Ocidental, descobrimos a figura integral de Lisboa.” Este ensaio de que livro era? Deste: Problemática da História Literária (Ática, 1961).

Quem hoje é professor desta disciplina, saberá quem foi Jacinto do Prado Coelho? Leu e deu a ler a alunos seus ensaios desse grande professor e ensaísta maior da nossa cultura? Na formação de professores nesta área, conhece-se o essencial A Educação do Sentimento Poético?

O grande debate sobre Educação em Portugal está por fazer e prende-se com a formação sólida dos professores e sobre a real exigência dos exames de acesso. Esta reforma de Fernando Alexandre falha em toda a linha: desmantelou organismos do Ministério; feriu de morte a fiabilidade e a justiça do processo de classificação; mecanizou e rebaixou os professores e estudantes à condição de animais mecânicos: uns a classificar, a etiquetar, outros a serem etiquetados. Exames perdidos, digitalização estupidificante, provincianismo, e, conjuntamente com o seu secretário de Estado, Homem Cristo, um passa-culpas que revela a falta de honestidade de ambos, o essencial, ainda assim, ficou por discutir: que gerações estamos, há mais ou menos 20 anos, a formar em Portugal com exames onde saber escrever, saber pensar, analisar, ter conhecimento histórico-literário, filosófico e estético; e saber ler de forma atenta à estilística e gramática de  já nem sequer se exige?

Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico    

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