A valorização profissional está barata

Paulo Guinote

Professor do Ensino Básico

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Ao consultar aleatoriamente um site de pet sitting descobri que um passeio de 30 minutos para um cão custa 12 euros, o mesmo valor que o MECI decidiu generosamente atribuir a cada docente que faça a reapreciação de um exame do Secundário. Isto para a Zona 1 (São Domingos de Rana; Carcavelos; Oeiras), que para a Zona 2 já são 14 euros (Paço d’Arcos e Parede). Já o apoio ao domicílio a um “patudo”, com uma visita diária, oscila entre os 14 e os 16 euros.

Vem isto a propósito da decisão do ministro da Educação assinar na passada 2.ª feira “um Despacho que determina o pagamento, a todos os professores classificadores dos Exames Finais Nacionais do Ensino Secundário, de 1 euro por cada resposta classificada e de 12 euros por cada prova reapreciada”, conforme comunicado divulgado nesse mesmo dia 27 de julho.

Não é uma má decisão, perante a confusão instalada, a falta de planificação dos meios disponíveis e a necessidade de cativar professores para a classificação dos exames da 2.ª fase e as reapreciações das duas fases, processo que entrará por Agosto dentro. O que não é raro, mas não na quantidade acrescida de reapreciações (em comunicado de dia 28, o JNE fala em mais de 20.000 contra 6200 no ano anterior) e exames da 2.ª fase (quantidade por apurar, quando escrevo).

As quantias são mesmo da ordem do simbólico, mesmo se há quem esteja feliz, quase com lágrimas, perante esta compensação, alegando que mais vale pouco do que nada, mais valendo uma migalha dura do pão, do que nenhum pão. Embora, com este valor, as mais de 20.000 reapreciações fiquem por uma pequena parte dos contratos com a Deloitte para remendar a plataforma de classificação dos exames.

Quanto aos itens pagos a 1 euro a peça, parece que poucos terão percebido que desapareceu a promessa de pagar horas extraordinárias aos classificadores, porque essa seria uma opção mais onerosa. Mas não devo contestar a alegria alheia, pois posso parecer invejoso por ser professor “básico” e não ter direito a nada. Sejam felizes, os que assim nem percebem até que ponto aceitam a proletarização da docência de braços bem abertos.

Até porque, no comunicado referido, o MECI sublinha que o reconhecimento do trabalho dos classificadores “é particularmente necessário este ano, tendo em conta a generalização da classificação eletrónica, processo que, sendo de elevada complexidade, decorreu com constrangimentos que dificultaram o trabalho”. E acrescenta que “esta medida enquadra-se nas políticas de valorização dos professores adotadas pelo Governo desde abril de 2024, reconhecendo o papel central que desempenham no sistema educativo e o carácter especial da sua carreira”.

Esta última parte era desnecessária, porque demonstra até que ponto se desvaloriza materialmente o trabalho dos professores, pagos a 1 euro a peça classificada. Se isto é “valorização” e reconhecimento do “papel central” e “carácter especial” da carreira docente vou ter de rever a remuneração que costumo dar a quem me ajuda, sem o pedir, a estacionar o carro em áreas moderadamente nobres de Lisboa ou em modestas zonas turísticas do país.

Afinal, a valorização profissional dos docentes sai barata e tem o bónus de deixar muita gente feliz com tão frugal simbolismo.

Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico

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