A urgência de cuidar do cérebro

Tiago Fleming Outeiro

Diretor da Faculdade de Medicina e Ciências Biomédicas, Universidade do Algarve

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No dia 23 de Outubro, a Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais, acolheu o I Congresso Científico Internacional do Instituto Português das Doenças Neurodegenerativas (IPDN), sob o mote “Ciência, Cuidar e Futuro”. Durante um dia, investigadores, médicos, enfermeiros, terapeutas, cuidadores e decisores sentaram-se à mesma mesa para discutir as demências, os parkinsonismos e as doenças do neurónio motor.

Tive o gosto de participar na mesa-redonda “Caminhos para o Futuro: Ciência, Clínica e Sociedade”, onde discutimos ideias sobre como ligar melhor a investigação básica, a translação e a clínica, e que prioridades estratégicas deve Portugal assumir. Num país onde a investigação, a clínica e o apoio social tantas vezes caminham em paralelo, sem se cruzarem, juntar estas vozes no mesmo espaço é um sinal de maturidade, e de urgência.

Segundo a Alzheimer Europe, em 2025 viviam em Portugal cerca de 238 mil pessoas com demência, 2,29% da população, um dos valores mais elevados da Europa. Em 2050 serão perto de 368 mil, quase 4% dos portugueses. No mundo, as projeções publicadas apontam para 153 milhões de pessoas com demência em 2050, quase o triplo das 57 milhões estimadas em 2019. A doença de Parkinson, a segunda doença neurodegenerativa mais frequente, afeta cerca de 20 mil pessoas no nosso país e deverá ultrapassar os 25 milhões de doentes em todo o mundo em 2050, mais do dobro do que hoje.

Convém dizê-lo com clareza: ainda não temos terapias capazes de travar ou curar estas doenças. Os tratamentos disponíveis aliviam sintomas, alguns de forma notável, como na doença de Parkinson, mas não impedem a progressão da neurodegenerescência. Mas a ciência está a mudar depressa. Os biomarcadores permitem hoje identificar a patologia de Alzheimer com uma precisão impensável há uma década.

Na doença de Parkinson, novos testes que estamos também a desenvolver também no meu laboratório de investigação da Universidade do Algarve, detetam a proteína patológica em amostras biológicas anos antes dos sintomas motores. Estamos a passar de diagnósticos tardios e muitas vezes incertos, para diagnósticos biológicos, precoces e objetivos.

Temos excelentes grupos de investigação, clínicos de referência internacional, associações de doentes dedicadas e autarquias com iniciativas meritórias. Mas trabalhamos demasiadas vezes de forma fragmentada, cada um no seu nicho, com projetos que nascem e morrem ao sabor de financiamentos pontuais, e sempre demasiado curtos. Precisamos de uma rede nacional que integre investigação, diagnóstico, cuidados e formação; de registos e coortes que nos digam, com dados portugueses, quantos doentes temos, onde estão e de que precisam; e de uma estratégia nacional para as demências que saia do papel e tenha orçamento, metas e avaliação.

Os governos e as autarquias devem assumir as doenças neurodegenerativas como prioridade de saúde pública.

Proponho um caminho concreto: projetos-piloto municipais na área da demência, que testem, em contexto real, modelos de rastreio de risco, diagnóstico precoce com biomarcadores, apoio estruturado ao cuidador e articulação entre cuidados primários, hospitais e respostas sociais.

Há uma mensagem de esperança que não podemos deixar de sublinhar. Estima-se que cerca de 45% dos casos de demência podem ser prevenidos ou adiados atuando sobre 14 fatores de risco modificáveis ao longo da vida: menor escolaridade, perda auditiva e visual não tratadas, hipertensão, colesterol LDL elevado, diabetes, obesidade, tabagismo, consumo excessivo de álcool, sedentarismo, depressão, traumatismos cranianos, poluição do ar e isolamento social.

Assim, a prevenção não é uma tarefa apenas da medicina. É da escola, que reforça a reserva cognitiva. É dos centros de saúde, que controlam a tensão arterial e a diabetes. É das autarquias, que criam espaços para a atividade física, combatem a solidão dos mais velhos e melhoram a qualidade do ar. É do Estado, quando facilita o acesso a aparelhos auditivos e a óculos. Cada euro investido hoje em prevenção será poupado em sofrimento e em custos amanhã.

O congresso do IPDN deixou claro que o conhecimento existe e que a vontade também. As doenças neurodegenerativas são, cada vez mais, um teste à nossa capacidade de antecipar, de cooperar e de cuidar. O cérebro não pode esperar.