A união faz a força vs. a lei do mais forte

Publicado a

A sensação é de que o mundo está a desmoronar-se e que há pouco a que nos agarrarmos para não sermos arrastados nesta avalanche de loucura. Vemos líderes mundiais a dizer e a fazer coisas outrora impensáveis, sem que haja uma indignação ou oposição firme por parte de grande parte da comunidade internacional. Vemos líderes mundiais a zombar das instituições internacionais e a desrespeitar ostensivamente o Direito Internacional com toda a desfaçatez, sem consequências. Vemos dualidade de critérios sobre violações de Direitos Humanos consoante quem seja o atacante e o atacado, no que mina necessariamente a confiança geral sobre a força que atribuímos aos Direitos Humanos. Vemos situações de completa dissonância entre o que é dito e o que é feito: como o discurso de Melania Trump na reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas (situação já de si absurda), centrado na necessidade de “paz através da Educação” quando dois dias antes - no primeiro dia dos ataques dos Estados Unidos da América e de Israel ao Irão - um bombardeamento matou 168 meninas que estavam na sua escola em Minab.

Se não nos resta um mínimo de entendimento sobre o que é aceitável, sobre o que é moral, sobre o que são as regras que nos regem a todos - como o Direito Internacional e os Direitos Humanos, sobre a confiança nas instituições, o que nos resta? Resta-nos a lei do mais forte. E a lei do mais forte é clara: quem tem as armas e o dinheiro reina e todos os outros são subjugados. E é por isso que tudo isto está a acontecer: os mais fortes sabem que serão reis e senhores na lei do mais forte. E que poderão dispor e repartir o resto do mundo para seu proveito.

Mas não tem de ser assim. A lei do mais forte não é inevitável. Dizemos muitas vezes que a união faz a força. É verdade e é a alternativa para combater a imposição da lei do mais forte. Mas para haver união é preciso haver um projeto, regras e valores comuns a que nos possamos todos agarrar e impedir o desmoronamento tanto institucional, como emocional que vivemos. Por isso correram o mundo as palavras do primeiro-ministro canadiano Mark Carney em Davos sobre a necessidade de alianças internacionais e, agora, as palavras e as ações do primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez que, repudiando o regime iraniano opressor do seu povo, condenou o ataque unilateral ao Irão ao arrepio da comunidade internacional.

Correram o mundo porque são palavras de coragem e que espelham os valores e as ações a que nos podemos agarrar para combater a loucura coletiva que nos está a ser imposta.

Neste aspeto, o Governo de Portugal tem-nos falhado. As palavras são inexistentes ou cuidadosamente medidas ou mesmo parciais. O mesmo com as ações. As explicações dadas sobre a utilização da Base das Lajes nos últimos dias são inquietantes. O problema não é apenas - como se fosse pouco - Portugal poder estar a ser cúmplice de um ataque feito ao arrepio do Direito Internacional. O problema é que, com estas posições dúbias e de conivência, os nossos governantes contribuem para a descrença neles próprios e nas instituições que representam, alimentando o que dá força a quem quer impor a lei do mais forte - o que põe em causa a perspetiva de construção do futuro coletivo a que todas e todos temos direito. E isso é imperdoável.

Diário de Notícias
www.dn.pt