No final de 2025, a OCDE - Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico, publicou mais uma edição do seu estudo Health at a Glance que nos oferece um retrato claro da saúde em Portugal. Entre as principais conclusões está o facto de continuarmos a alcançar resultados clínicos acima da média europeia, apesar de funcionarmos com recursos inferiores aos países mais desenvolvidos. Este paradoxo, que há anos caracteriza o nosso sistema de saúde, é um sinal de resiliência, mas também um alerta: a forma como preparamos os nossos profissionais precisa de evoluir rapidamente.Os números são elucidativos e refletem sucesso do ponto de vista clínico e capacidade de resposta da rede de saúde. Portugal regista uma esperança média de vida de 82,5 anos, acima da OCDE, uma mortalidade evitável mais baixa do que a maioria dos países analisados e a prevalência de diabetes também está abaixo da média da organização. Mas quando olhamos para a forma como o sistema é financiado, começamos a perceber as fragilidades: apenas 61,5% da despesa em saúde é financiada por regimes públicos obrigatórios, muito abaixo dos 75% da média da OCDE, deixando uma parte significativa do custo para ser suportado pelas famílias.Ao mesmo tempo, persistem desafios de saúde pública que não podem ser ignorados. Portugal regista um dos níveis mais elevados de consumo de álcool da OCDE, uma proporção significativa da população classifica o seu estado de saúde como “mau” ou “muito mau” e existe uma pressão crescente sobre os cuidados primários. Problemas comportamentais, sociais e organizacionais, como a obesidade, as desigualdades no acesso aos cuidados e a insatisfação com o sistema refletida, por exemplo, nos tempos de espera e nas dificuldades de acesso, exigem respostas que vão além da medicina tradicional.Tudo isto está intrinsecamente ligado à forma como formamos os futuros profissionais de saúde, e o mesmo estudo mostra-nos um caminho claro para inovarmos. A questão é: as universidades estão preparadas para dar o próximo passo? Cada número deste relatório traduz-se em competências que os profissionais vão precisar: desde a promoção da literacia em saúde e a gestão de determinantes sociais, até à utilização de ferramentas de telemedicina, análise de dados clínicos em larga escala, aplicação de inteligência artificial no diagnóstico e desenvolvimento de modelos de cuidados centrados na prevenção.Neste contexto, o ensino superior privado tem hoje uma oportunidade real de assumir um papel determinante na resposta a estes desafios. Não como concorrência ao setor público, mas como um parceiro capaz de acelerar a resposta dada. A sua flexibilidade para atualizar planos de estudo, integrar tecnologia e inovação pedagógica, colaborar de forma estreita com a prática clínica e com as comunidades, e desenvolver programas em áreas emergentes, como saúde digital, inteligência artificial aplicada à saúde, e abordagens multidisciplinares, confere-lhe uma vantagem competitiva que pode ser decisivaO nosso país precisa de profissionais capazes de gerir a complexidade crescente do sistema de saúde: lidar com doenças crónicas e comportamentais, promover a prevenção, interpretar grandes volumes de dados em contextos reais, e aplicar soluções sustentáveis e equitativas. A integração de abordagens como o modelo One Health, que articulem saúde humana, animal e ambiental, é um ponto especialmente relevante num país onde várias das fragilidades identificadas pela OCDE são determinadas por fatores ambientais e comportamentais, e não apenas biomédicos.A verdade é que a formação em saúde não pode continuar a centrar-se exclusivamente na técnica; tem de preparar cidadãos e profissionais para gerir sistemas que trabalham com escassez de recursos, exigência crescente e necessidade de inovação contínua.Assim, temos de olhar para este relatório como um ponto de partida para formar profissionais mais qualificados, digitais, interdisciplinares, orientados para a prevenção e conscientes do seu impacto para a sustentabilidade económica e social. Essa transformação exige renovação dos modelos educativos e capacidade constante de adaptação. E é precisamente aqui que o ensino superior privado pode, e deve, agir como um motor de inovação para o sistema de saúde português, com rigor científico, responsabilidade pública e capacidade real de resposta aos desafios do século XXI.