A relação de Montenegro com a realidade

João Oliveira

Eurodeputado pelo PCP

Publicado a

Do discurso do primeiro-ministro na festa de verão que o PSD costuma fazer no Pontal sobressaem quatro tipos de diferente relação com a realidade. Um de ausência da realidade, outro de negação da realidade, um terceiro de ocultação da realidade e um último de realidade alternativa.

O primeiro-ministro falou de “governar para as pessoas” num discurso em que está completamente ausente a realidade diária que vivem milhões de pessoas. Não há, naquele discurso, perspectiva de solução para as dificuldades de quem procura uma creche para o bebé e não tem vaga, de quem espera e desespera por cuidados de saúde ou encontra urgências fechadas, de quem faz contas e percebe que o salário não comporta os aumentos de preços que tornam tudo mais caro, para engordar os lucros das grandes empresas.

Falou ainda dos resultados supostamente positivos das suas políticas, negando a realidade. As dificuldades já referidas confirmam essa negação da realidade. A elas podem acrescentar-se as dificuldades acrescidas no acesso à habitação ou, ainda, o agravamento das desigualdades em consequência do alívio de impostos para as grandes empresas e quem tem rendimentos mais elevados, em contraste com o aumento do custo de vida para a esmagadora maioria da população e a redução da proteção social de pessoas em situação de pobreza, ou exclusão social, ou com deficiência.

Há ainda, naquele discurso de Luís Montenegro, uma fortíssima tentativa de ocultar a realidade, sobretudo quanto a quem beneficia e quem é prejudicado pelas políticas do Governo. Anunciou a recuperação pelo Estado de uma participação accionista minoritária na REN - Rede Elétrica Nacional, ocultando os prejuízos causados ao país pela privatização feita em 2014 e que ele próprio apoiou. Ao mesmo tempo, mantém a intenção de privatização nos transportes, em particular na TAP e na ferrovia, ocultando os prejuízos que daí resultarão para os trabalhadores, os utentes e o país. Tenta dourar o passado do PSD a propósito dos Governos PSD de Cavaco Silva, ocultando que nesses anos encontramos uma grande parte das decisões que conduziram Portugal à situação de dependência externa em que hoje se encontra.

A verdade é que o Governo tem uma agenda política que é para uns, mas não é para outros. Ela não corresponde aos interesses do povo, nem do país, mas é partilhada pelos grandes grupos económicos e financeiros, e pela União Europeia. Umas vezes o Governo cumpre essa agenda com o apoio do PS, outras vezes com o do Chega e da Iniciativa Liberal. Mas sempre em prejuízo dos trabalhadores, do povo e do desenvolvimento nacional.

Falar, nesse contexto, da intenção de inscrever na história nacional 10 gloriosos anos de Governos sob a sua liderança deixa Luís Montenegro a discorrer sobre uma realidade alternativa. Uma realidade alternativa em que as políticas que antes nos desgraçaram poderiam agora miraculosamente trazer-nos a bonança.

Portugal precisa de uma política alternativa, não dessa realidade alternativa..

Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico 

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