emHá discursos que anunciam mudanças e há discursos que se anunciam a si próprios como revelação. O problema começa quando alguém deixa de falar como reformador e passa a falar como enviado, e quando a reforma deixa de ser ferramenta de melhoria e passa a ser liturgia. A situação agrava-se quando a política pública, que deveria ser prudente, concreta e cumulativa, se transforma numa espécie de evangelho administrativo, pronunciado como se antes dele houvesse apenas ruína, atraso e pecado original.O atual Governo fala num “novo paradigma de serviço público” para descrever esta agenda. Nada contra a ambição, pois o Estado Português precisa, de facto, de simplificação, coordenação, digitalização e melhor resposta aos cidadãos. Mas uma coisa é querer reformar, outra bem diferente é falar como se a reforma começasse no momento em que se entra em cena, com a solenidade de quem chega para corrigir não apenas a máquina do Estado, mas quase a própria História nacional.A reforma do Estado, sendo uma causa séria e necessária, devia convocar memória, continuidade e inteligência institucional. Devia reconhecer que o Estado Português não nasceu ontem, que não foi inventado num PowerPoint e que mesmo aquilo que hoje está gasto ou emperrado foi, muitas vezes, construído por sucessivas tentativas de modernização, por gerações de funcionários, técnicos, juristas e decisores que trabalharam com os instrumentos e os limites do seu tempo. Reformar não é denegrir o passado, é trabalhar sobre ele.Mas há uma tentação contemporânea, muito própria dos tempos de marketing político, para transformar qualquer agenda de modernização numa guerra moral. De um lado os iluminados do futuro, do outro os fósseis do atraso. De um lado a eficácia, a inovação, a energia transformadora e do outro a papelada, a inércia, o peso morto da herança. Esta simplificação é intelectualmente pobre, mas politicamente rentável. Permite vender uma causa de unidade como se fosse uma batalha de libertação e permite trocar o trabalho difícil de reformar pelo prazer mais fácil de hostilizar.É preciso alertar que o Estado não é um inimigo a abater, não é uma fortaleza ocupada por fantasmas e não é um museu de incompetências à espera de um messias com um novo organograma. O Estado é ao mesmo tempo, problema e solução, peso e proteção, lentidão e memória, continuidade e garantia de igualdade. Tratá-lo como se fosse apenas uma ruína ideológica é um erro de visão e tratá-lo como território de purificação é pior, pois é abrir caminho a uma política que confunde reforma com ajuste de contas.Talvez seja essa pulsão redentora, o traço mais inquietante deste tipo de discurso. A reforma já não aparece como processo imperfeito, negociado, gradual e até humilde. Surge como promessa de redenção, quase como se bastasse nomear um “novo paradigma” para absolver o presente e condenar em bloco tudo o que veio antes. Quando a política adota este tom messiânico, há sempre um risco de deixar de governar com a realidade para começar a pregar contra símbolos.Ora, o passado não é um campo inimigo, é o nosso chão. Um país que declara guerra ao seu próprio chão em nome da regeneração, acaba quase sempre por trocar a reforma pela encenação, pois reformar o Estado exige menos épica e mais exatidão, menos proclamação e mais paciência, menos combate ideológico e mais respeito institucional. Exige reconhecer que uma causa de unidade nacional não pode ser transformada numa guerra cultural contra tudo o que existia antes do reformador entrar em funções.É preciso desconfiar de governantes que se rodeiam apenas de aplausos e que falam da reforma como quem anuncia uma salvação. Não porque o Estado não precise mudar, mas as reformas sérias não nascem da vaidade de inaugurar o mundo, nascem da inteligência de perceber que nenhum futuro sólido se constrói à custa de uma caricatura do passado.