A transição para uma economia impulsionada por Inteligência Artificial (IA), a automação avançada e a robótica, por muito que aumente a produtividade, está a provocar um aumento do desemprego. O mais visível é o desemprego friccional envolvendo a substituição direta dos trabalhadores por IA, automação avançada ou robôs, que já abordámos em artigo anterior.. A. Desemprego por não criação de emprego Historicamente, o crescimento industrial em grande escala trazia associado um dividendo social claro: o aumento do volume de produção implicava a contratação proporcional de centenas de milhares de operários, técnicos de montagem e pessoal de apoio.O desemprego por não-criação de emprego (frequentemente referido na literatura económica e empresarial como non-hiring, hiring freeze ou jobless growth impulsionado pela tecnologia) representa uma mudança estrutural no mercado de trabalho.Ao contrário das vagas destruídas por demissões em massa (que geram forte impacto mediático) do desemprego friccional, este fenómeno ocorre de forma silenciosa e progressiva. As empresas mantêm ou expandem a sua capacidade operacional sem aumentar as suas equipas, cobrindo o crescimento do trabalho através da IA, automação de processos (RPA) e robótica, em vez de abrirem novos postos de trabalho ou substituírem trabalhadores que saem espontaneamente. B. Caracterização do fenómeno 1. O “bloqueio” no acesso dos jovens ao mercado (entry-level squeeze)O impacto mais crítico não incide tanto sobre os trabalhadores experientes, mas sobre os recém-licenciados e profissionais em início de carreira. Como a IA generativa e os agentes autónomos assumem tarefas repetitivas de análise de dados, redação inicial de código, tradução e suporte básico, as vagas de nível de entrada estão a desaparecer.2. Crescimento sem emprego (jobless growth)Algumas empresas conseguem escalar a produção e faturação aproveitando ganhos de produtividade entre 10% e 25% proporcionados pela IA, sem necessidade de expansão proporcional do quadro de pessoal (headcount).3. Substituição por atrito natural (attrition)Em vez de incorrerem em custos de despedimento e atritos sociais, os empregadores aproveitam a rotatividade natural (reformas, demissões voluntárias) e optam por não reocupar essas funções, automatizando as tarefas remanescentes. C. Relevância do fenómeno 1. Robotização e automação plena de raizA fábrica de veículos elétricos da Xiaomi: O exemplo emblemático da fábrica de veículos elétricos SU7 da Xiaomi, em Pequim, reflete plenamente este paradigma. A instalação opera com centenas de robôs industriais e sistemas de visão computacional guiados por IA, cobrindo etapas desde a estamparia e soldadura até à pintura, inspeção de qualidade e montagem da bateria. A linha é capaz de produzir um automóvel a cada 76 segundos com uma intervenção humana quase residual. Neste cenário, a fábrica da Xiaomi não precisou de demitir 5000 operários para se tornar eficiente; simplesmente nunca chegou a contratá-los. A “não-criação de emprego” é o desemprego invisível: postos de trabalho operacionais que teoricamente deveriam surgir com o nascimento de uma nova gigante industrial, mas que foram totalmente absorvidos por algoritmos e automação desde o primeiro dia de operação. .Existem muitos outros casos reveladores do impacto da IA, automação e robótica no mercado de trabalho através do cancelamento / congelamento de contratações, ainda que não tão radicais como no caso da fábrica de veículos elétricos SU7 da Xiaomi. 2. Queda nas contratações em Big TechsAs grandes empresas de tecnologia reduziram a contratação de recém-licenciados em cerca de 25%, enquanto as startups diminuíram essas admissões em 11% no mesmo período.Vale a pena ver alguns dados concretos, números que comprovam esta tendência: 2.1. O colapso das vagas entry-level em programaçãoO indicador mais direto do desemprego por não-criação de emprego é a redução drástica do número de anúncios de vagas para engenheiros de software em início de carreira (juniors / P1).Planalto de queda de até 73%: Análises do mercado tecnológico baseadas nos relatórios de compensation da plataforma Ravio revelaram que as contratações para posições de nível de entrada no setor de tecnologia sofreram um colapso de cerca de 73%, enquanto a contratação geral caiu apenas cerca de 7%.Queda nos postos de trabalho no Indeed: Segundo dados recolhidos do Indeed, o número total de anúncios de emprego para desenvolvimento de software caiu mais de 50% em relação ao pico do final de 2022.2.2. Dados do Stanford Digital Economy Lab (trabalhadores jovens)Pesquisadores liderados por Erik Brynjolfsson no Digital Economy Lab da Universidade de Stanford analisaram os efeitos da IA no emprego por faixa etária e grau de exposição à tecnologia:Trabalhadores dos 22 aos 25 Anos: Nas ocupações altamente expostas à IA generativa (como programação júnior, desenvolvimento de código, análise de dados de entrada e apoio ao cliente), o emprego entre jovens de 22 a 25 anos sofreu uma queda de c. 16% ~ 20% em comparação com o final de 2022. Em contrapartida, as faixas etárias de seniores (35 a 49 anos) mantiveram a estabilidade ou até cresceram ligeiramente no mesmo período.Taxa de desemprego para recém-licenciados: A taxa de desemprego entre recém-licenciados em Ciência da Computação e Engenharia Informática subiu para patamares entre 6,1% e 7,5%, o dobro da média nacional de desemprego para diplomados nos EUA.2.3. Queda global em estágios e recrutamento universitárioAs Big Techs e empresas de software reduziram significativamente os seus programas de recrutamento em universidades (graduate schemes e internships):Reino Unido (ISE Report): O Institute of Student Employers no Reino Unido reportou uma queda de 46% nas vagas de tecnologia dirigidas a recém-licenciados.Estágios: As ofertas de estágios em empresas de tecnologia caíram cerca de 30% a 50% em relação ao período pré-IA generativa.2.4. Reestruturação estratégica das próprias empresasExemplos de algumas grandes empresas que estão a gerir esta transição através do congelamento de vagas (hiring freeze) e não-criação de novos postos:. 3. Desequilíbrio entre a procura por profissionais seniores e junioresQueda geral de 35% em vagas juniores: Segundo dados da Revelio Labs divulgados pelo World Economic Forum, o número global de ofertas de emprego entry-level caiu 35%. Impacto desproporcional em funções expostas à IA: As vagas de nível inicial para funções com elevada exposição à IA (tarefas facilmente automatizáveis) sofreram uma queda >40%. Divergência de contratação: Enquanto o mercado reduz a contratação de novos diplomados, cada aumento de 10% na “exposição à IA” de uma função está associado a uma redução de 11% na procura por cargos juniores, mas a um aumento de 7% na procura por cargos seniores capazes de gerir e supervisionar essas ferramentas. Comoditização da execução: As empresas preferem contratar um profissional sénior equipado com assistentes de IA (como GitHub Copilot ou Claude), obtendo o rendimento equivalente ao de três juniores sem a necessidade de investir 1 a 2 anos em formação e supervisão.4. Serviços financeiros, advocacia e serviços de informaçãoA ausência de criação de postos de trabalho também está a afetar diretamente os licenciados em Ciências Sociais, Gestão e Direito:Serviços financeiros e gestão: As ofertas de emprego de nível de entrada no setor financeiro e de consultoria registaram uma queda de 44%. A análise preliminar de contratos, due diligence e modelos financeiros básicos passou a ser efetuada por modelos de linguagem de grande escala (LLM)..Lideranças reconhecem o impacto: Em inquéritos da LinkedIn com mais de 3000 executivos, 63% dos líderes empresariais afirmaram que a IA assumirá progressivamente a maior parte das tarefas rotineiras anteriormente atribuídas a funcionários juniores. Desemprego de diplomados vs. média geral: Pela primeira vez em períodos recentes de expansão económica, a taxa de desemprego e subemprego entre recém-licenciados universitários em várias economias avançadas ultrapassou a taxa média global de desemprego, atingindo cerca de 5,8% a 7,5% no setor de trabalho de escritório (colarinho branco).D. Evolução recente nos EUA Dados recentes dos EUA mostram que o crescimento do emprego no setor privado caiu 60% nos últimos dois meses (maio~julho de 2026). Os dados da ADP NER mostram que os empregadores acrescentaram apenas 16.500 vagas por semana a 4 de julho, contra 40.750 no início de maio. O relatório de emprego de junho registou 57.000 vagas, cerca de metade das expectativas. Os pedidos iniciais de subsídio de desemprego caíram para o nível mais baixo desde 1969. As empresas deixaram de contratar, mas também não estão a despedir. O mercado de trabalho americano não está em colapso. Parece estar congelado.. As contratações estão a diminuir porque as empresas estão a aprender a operar com menos pessoas, e os trabalhadores que perdem os seus empregos estão a entrar num mercado onde quase ninguém está a contratar.É possível que seja uma situação temporária.É provável que esta situação decorra também da instabilidade criada pela gestão errática da Administração Trump.Porém, parece haver uma espécie de congelamento de contratações à escala nacional americana.. O desânimo dos trabalhadores está no nível mais elevado desde janeiro. São necessárias 800 candidaturas para conseguir uma vaga de nível inicial. A participação na força de trabalho está no nível mais baixo em cinco anos. A taxa de desemprego de 4,2% só parece saudável porque muitas pessoas estão a abandonar o mercado de trabalho.Esta situação de congelamento de contratação de novos trabalhadores, de incapacidade de as empresas absorverem [devido à cada vez maior utilização de IA e automação] milhões de novos diplomados universitários lançados anualmente no mercado, e de cada vez mais jovens serem forçados a viver permanentemente com os pais (de que é exemplo o “tang ping” / “lying flat” dos jovens chineses) seguramente vai estender-se a outros países, a começar pelos países europeus e da OCDE.Urge repensar os apoios sociais aos complexos problemas criados pelo crescente desemprego por não-criação de emprego.É necessário começar a assumir a existência deste “desemprego invisível” e abordar os seus efeitos no discurso, na análise e, sobretudo, na ação política.