A razão e os seus inimigos

Filipe Alves

Diretor do Diário de Notícias

Publicado a

Um conhecido influenciador concedeu uma entrevista a um jornal nacional, no qual defende, entre outras coisas, que o cancro é uma doença provocada pelas atitudes dos próprios doentes e que deve ser tratada com terapias alternativas. A entrevista provocou as mais variadas reações, desde manifestações de repúdio a demonstrações de apoio.

Nos últimos séculos, sobretudo desde o Iluminismo, a Revolução Industrial e a Revolução Francesa, a nossa civilização aprendeu a reverenciar o saber. Admirávamos os grandes pensadores, os médicos, os professores, os cientistas, os juristas, os físicos, os inventores, os arquitetos e os engenheiros que faziam grandes obras. A ascensão da burguesia, no século XIX, consolidou a autoridade destas elites intelectuais. Quando um médico ou um cientista falavam do seu mester, poucos se atreveriam a desafiá-los.

"A sociedade precisa de recuperar o respeito pelo conhecimento e pela ciência. Sem confiança nesta última, não há saúde pública."
"A sociedade precisa de recuperar o respeito pelo conhecimento e pela ciência. Sem confiança nesta última, não há saúde pública." FOTO: Reinaldo Rodrigues

Hoje, estamos a assistir ao processo inverso. A democratização do acesso à comunicação, através das redes sociais, fez com que se democratizasse também o direito a dizer disparates em público. E se um ignorante pode ser inofensivo, um ignorante empoderado pode ser verdadeiramente perigoso, para si e para os outros.

A verdade factual, que se pode testar e verificar, passou a ser desafiada por mil e uma “verdades alternativas”, num processo que contou também com a cumplicidade de muitos jornalistas. O tecido social fragmentou-se e passámos a viver em sociedades ultrapolarizadas, onde o diálogo, por vezes, deixou de ser possível.

Porém, a ascensão da Inteligência Artificial poderá tornar este cenário ainda mais preocupante. Hoje, qualquer um consegue ter opiniões sobre questões legais, problemas de saúde, física nuclear, vacinas, epidemiologia ou programação. Basta perguntar ao algoritmo.

Vivemos, por isso, num tempo em que a autoridade das antigas elites intelectuais e científicas está a ser posta em causa. Parece que as únicas profissões que estarão a salvo desta vaga – até ver – serão as de natureza técnica ou manual. Até porque o Chat GPT não consegue substituir – ainda – um bom carpinteiro ou um canalizador competente.

“A verdade factual, que se pode testar e verificar, passou a ser desafiada por mil uma 'verdades alternativas', num processo que contou também com a cumplicidade de muitos jornalistas.”

Mas o problema não é apenas a erosão da autoridade, mas também da responsabilidade. Quando alguém, com milhões de seguidores, afirma que o cancro é culpa dos doentes, não está apenas a mentir. Está a ferir pessoas de carne e osso, que estão a sofrer com uma doença cruel. Está a transformar a vulnerabilidade em culpa e a ciência em superstição. Está a substituir o conhecimento por um misticismo à base de frases motivacionais e lemas new age.

A sociedade sempre conviveu com este tipo de figuras. O que mudou foi a escala e o palco a que as mesmas conseguem aceder. A tecnologia amplificou a voz de quem não sabe, mas fala como se soubesse. E, pior, deu a essa voz uma aparência de autoridade. Hoje, um vídeo bem editado vale mais do que um artigo científico, ou do que décadas de investigação.

A sociedade precisa de recuperar o respeito pelo conhecimento e pela ciência. Sem confiança nesta última, não há saúde pública. E sem confiança na informação, não existe democracia. Daí que o bom jornalismo faça cada vez mais falta.

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