Uma democracia não se mede apenas pela existência de eleições livres. Mede-se pela efetividade dos direitos, pela independência das instituições, pela confiança pública, pelo acesso à Justiça, pela representação política e pela capacidade de responder às expectativas das pessoas.A nossa democracia está consagrada na Constituição de 76 e assente na dignidade das pessoas, no Estado de Direito, nas liberdades fundamentais e nos direitos económicos, sociais e culturais. O problema está na distância entre a norma e a prática.A Justiça é lenta e desigual no acesso. A perceção de corrupção corrói a confiança nas instituições. A participação política formal é frágil e muitas pessoas olham para os partidos, a Assembleia e o Governo com desconfiança. O regime é reconhecido como democrático, mas cresce a dúvida sobre a sua capacidade para resolver problemas concretos.Em 2026, a fragilidade democrática resulta também da tensão entre o fim do mês e o fim do mundo.De um lado, habitação, salários, precariedade e custo de vida. Do outro, crise climática, transformação tecnológica, Inteligência Artificial e receio de novas desigualdades. São ansiedades políticas porque atingem o coração da confiança democrática.Quando a democracia deixa de ser percebida como capaz de assegurar previsibilidade e melhoria das condições de vida, abre-se espaço para respostas simplificadoras. O populismo cresce nesse terreno e anuncia a passagem ao iliberalismo, em que a frustração se traduz na erosão deliberada dos contrapesos. Tribunais, reguladores, comunicação social e órgãos de fiscalização passam a ser tratados como adversários a neutralizar. E o problema já não é só a frustração difusa das pessoas: é que parte dos atores institucionais internalizou esse vocabulário antissistema e o reproduz a partir de dentro.O desafio não é apenas aplicar melhor a Constituição, nem apenas exigir respostas mais eficazes. É fazer as duas coisas em simultâneo. Responder à habitação, aos rendimentos, à precariedade, à Justiça e aos serviços públicos sem enfraquecer as garantias democráticas. E preparar a sociedade para os choques de um futuro próximo.Os nossos direitos, liberdades e garantias, a separação de poderes, o Estado de Direito, as eleições livres e justas e os nossos direitos económicos, sociais, culturais, ambientais e de identidade não são obstáculos à ação política. São condições para que a governação seja legítima e controlada. Tratá-los como entraves abre caminho para outro sistema político que não uma democracia.A resposta aos problemas concretos não pode ser construída contra a Constituição, mas através dela. Uma democracia de qualidade é eficaz sem deixar de ser limitada pelo direito; responde sem dispensar controlo; decide sem eliminar o pluralismo; transforma sem sacrificar as garantias que protegem todos.Nos 50 anos da Constituição, Portugal não enfrenta uma crise de regime, mas uma crise de desempenho democrático. Mantém bases sólidas, mas revela dificuldades em convertê-las em respostas presentes e futuras. O risco está em deixar que a distância entre instituições e pessoas se transforme em ressentimento.O futuro da democracia portuguesa dependerá do que partidos, instituições e pessoas estiverem dispostos a exigir uns dos outros. Que os partidos não confundam eficácia com desprezo pelos contrapesos. Que as instituições decidam e prestem contas. Que nós defendamos as garantias mesmo quando são incómodas. Em 2026, a qualidade da democracia mede-se pela capacidade de responder às angústias do fim do mês sem esquecer o desafio do fim do mundo, e por fazê-lo sem desmontar aquilo que torna a resposta legítima.