Foram episódios lamentáveis, os que se viveram com a plataforma de correção dos Exames Nacionais. O novo sistema, aplicado a todos os exames e sem qualquer plano alternativo, acumulou falhas que afetaram a confiança no processo de classificação: digitalizações defeituosas, provas incompletas e erros de leitura digital comprometeram uma avaliação rigorosa, atrasando o calendário de correção e forçando o Ministério da Educação a adiar a afixação das pautas. Em suma, ocorreram demasiados problemas para um sistema que já não era um “piloto”, mas sim a solução final e universal.Para quem tem experiência de inovação no setor público, tudo isto pareceu ainda mais estranho. É verdade que alterações disruptivas desta natureza – que dependem da colaboração de milhares de pessoas e de uma logística complexa - raramente começam isentas de problemas. Por isso mesmo, exigem um cuidado muito especial no seu planeamento. Impõem uma “prova de conceito” bem desenhada, um “piloto” restrito e intensamente monitorizado, equipas públicas e privadas experientes, supervisão política de grande proximidade e atenta aos pequenos detalhes que podem afetar todo o processo. A inovação mais exigente exige método, prudência e validação progressiva; não se faz por decreto, nem apenas por se ter uma boa ideia e uma forte determinação em a aplicar.Foi assim que ocorreu no passado – dois exemplos entre muitos outros casos - com o IRS automático ou com o Cartão de Cidadão. Depois de uma planificação detalhada, uma “prova de conceito” bem-sucedida e muito participada, o apoio de equipas externas já muito experientes em projetos no setor público e o envolvimento de todos os serviços relevantes - não apenas ao nível de direção –, no caso do Cartão de Cidadão ainda foi necessário um “piloto” de três meses na pequena ilha do Faial, para resolver problemas inesperados que ocorreram quando o sistema entrou em produção e se confrontou com a variabilidade dos casos reais.Assumidos os problemas desta precipitada prova de fogo e a responsabilidade de quem a conduziu, o pior que poderia acontecer seria recuar e abandonar a reforma da digitalização das provas.Contudo, algumas lições precisam de ser retiradas. A primeira é perceber que a tecnologia, por melhor que seja, não está isenta de falhas. A segunda é entender que não basta decidir que, “de agora em diante, será assim” para que a mudança aconteça. E talvez não fosse mau reconhecer que a experiência acumulada no passado conta: já houve processos de transformação digital bem-sucedidos na Administração pública, e nada disto é uma invenção deste Governo. A diferença está no cuidado com que se prepara, testa, acompanha e corrige, precisamente onde parece terem ocorrido os maiores erros.Por fim, convém recordar uma verdade simples, mas tantas vezes ignorada: no setor público, inovar não é apenas introduzir tecnologia – é saber governar a mudança. Foi exatamente nessa prova que o Governo não passou.