O Congresso do PS confirmou o que já se intuía: José Luís Carneiro pode ser, institucionalmente, um líder incontestado no partido - ninguém se apresentou contra ele -, mas politicamente está longe de ser consensual. À aceitação formal da liderança, falta uma dose evidente de entusiasmo, com uma parte significativa das intervenções em Viseu a apontar a falta de um alinhamento estratégico claro. Ninguém atacou Carneiro de frente, mas não faltaram avisos evidentes: pediu-se mais coragem, mais voz na oposição, maior afirmação como alternativa de Governo...Carneiro enfrenta um paradoxo clássico em momentos de transição: é reconhecida a dificuldade do contexto, após a derrota eleitoral e o desgaste de anos de governação, mas pede-se uma narrativa mobilizadora que reposicione o partido como alternativa credível de poder.A questão que domina o debate interno é clara: como lidar com o Governo da AD e a sua relação com o Chega? A narrativa de uma “aliança de facto” foi repetida, com a acusação de que o Executivo governa com o Chega ao longo do ano e recorre ao PS apenas para viabilizar o Orçamento do Estado. A realidade mostra que, de facto, tem sido o Chega o parceiro preferencial de Montenegro para fazer avançar temas sensíveis da governação, enquanto o PS e as famosas cartas de Carneiro são ignoradas pelo primeiro-ministro. E a escolha de juízes para o Tribunal Constitucional surge agora como um momento definidor.Dentro do partido surgem, pelo menos, duas linhas em confronto. A mais dura defende a rutura: se o PSD se aproxima do Chega, o PS deve afastar-se claramente e “estar do outro lado da rua”, como sintetizou Augusto Santos Silva, ex-presidente da AR. Uma outra, mais “institucional”, sublinha a necessidade de garantir governabilidade, mesmo em condições adversas, como apontou o presidente reeleito do partido, Carlos César, defendendo a responsabilidade do PS em “tornar o Governo o menos mau possível”.Entre estas duas posições joga-se a estratégia do partido. Mas o problema é mais fundo. O PS enfrenta dificuldades evidentes em captar jovens e novos eleitores, e precisa de ser capaz de apresentar ideias novas e mobilizadoras para o país, como reclamaram vários socialistas - desde logo o ex-líder da Juventude Socialista, Costa Matos, e a sua badalada moção.Externamente, a liderança de Carneiro enfrenta um equilíbrio difícil: como salientou Francisco Assis, o PS tem de ser capaz de ser uma oposição “de compromissos e ruturas”. Ou seja, manter a aura de responsabilidade sem se tornar a muleta do Governo e vincar a personalidade sem cair no descrédito do partido de protesto. Tudo o que fique aquém disso pode empurrar o partido para um longo inverno político. Esperar sentado o natural desgaste da governação é arriscar ver isso capitalizado por outras vozes mais ativas na oposição.Por outro lado, internamente, a pressão não é menor: o líder socialista sabe que tem três anos para construir um PS renovado e pronto para o comboio eleitoral de 2029 (europeias, legislativas e autárquicas), mas também deve ter a certeza de que, quando as eleições se apresentarem no horizonte próximo, a oposição interna não se limitará a recados sobre o estilo de liderança. Alguns dos que agora se mantêm discretos, depois do desgaste dos anos de governação de António Costa e da falhada afirmação de Pedro Nuno Santos, observam atentamente a oportunidade para avançar e Carneiro sabe que se arrisca a lidar com o fantasma “Seguro 2014”. Até lá, o seu PS tem de arrepiar caminho.