Há canções que explicam um país melhor do que muitos tratados. Em 1982, Jorge Palma tratou Portugal por tu e perguntou: “De que é que tu estás à espera?” Quarenta e quatro anos depois, a pergunta continua desconfortavelmente atual.
Na canção está muito do que somos: a tendência para adiar, a esperança num salvador que resolva o que fomos deixando por fazer, a nostalgia de uma grandeza antiga que tantas vezes serve para desculpar a falta de ambição presente. Mas está também a ternura, a ironia e a teimosia de quem continua a acreditar que o país pode fazer melhor.
Jorge Palma cantou-nos sem solenidade e sem cinismo, de igual para igual, como se fala a um amigo que podia ser muito mais. Talvez essa seja hoje a melhor homenagem que lhe podemos prestar: ouvir a pergunta e deixar de esperar.
As perguntas de sempre
Se a canção fosse escrita hoje, pouco mudava. Continuamos à espera de casas que os salários consigam pagar. De salários que convençam os jovens a ficar. De um SNS onde uma consulta não demore meses. De uma Justiça que decida a tempo. De uma economia que produza mais e pague melhor. De um interior e de ilhas que consigam fixar quem lá quer viver.
São problemas que atravessam governos, programas e promessas e regressam, legislatura após legislatura, quase intactos. Mudam os planos, os nomes e os anúncios. Demasiadas vezes, fica a dificuldade em executar e em resolver.
E há um custo que não aparece no Orçamento: o de uma geração que ouviu as mesmas promessas durante anos e começou a duvidar de que alguma coisa mude. Muitos responderam à pergunta de Palma da forma mais simples: partiram.
Os dois Montenegros
Há dois Montenegros. O primeiro fala de um país a mudar, cheio de planos, datas e milhões. O segundo gere o dia a dia, adia o difícil e espera que a conjuntura faça o resto. Um vive de conferências de imprensa. O outro, de calendário, milhões e metas. Depois chega o quotidiano e continuamos com problemas conhecidos na habitação, na saúde, nos salários ou na execução de políticas públicas.
A distância também se sente entre Lisboa e Bruxelas. Em Portugal, anunciam-se prioridades. Na Europa, quando se negoceiam o orçamento, a coesão, a agricultura ou as pescas, é preciso garantir que essas prioridades têm dinheiro e regras que as tornem possíveis.
Governar não se mede pelo número de anúncios. Mede-se pelo que muda na vida das pessoas. É essa a diferença entre criar expectativas e produzir resultados.
Fundos para transformar
Passaram 40 anos desde a entrada de Portugal na então Comunidade Económica Europeia. Muito mudou com os fundos europeus: estradas, escolas, saneamento, qualificações, empresas e infraestruturas, investigação, ciência. Seria absurdo negá-lo.
Mas a próxima geração de fundos não pode servir apenas para manter o que existe ou compensar fragilidades antigas. Tem de ajudar a transformar a economia, aumentar a produtividade, responder à habitação, investir em ciência e qualificações, e dar condições aos territórios para fixarem pessoas.
Vem aí um novo Orçamento Europeu. A discussão não pode ficar reduzida ao montante que Portugal consegue trazer ou à taxa de execução que consegue apresentar. A pergunta mais importante é outra: o que muda depois de o dinheiro ser gasto?
A Europa pode dar-nos meios. A ambição tem de ser nossa. 40 anos depois, talvez esteja na altura de responder a Jorge Palma.