A passagem do risco à confrontação: a nova equação estratégica do poder

Ana Miguel dos Santos

Especialista em Segurança e Defesa

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Durante décadas, o sistema internacional viveu sob uma espécie de equilíbrio paradoxal: as grandes potências possuíam capacidades de destruição massiva, instrumentos de pressão económica, mecanismos de guerra híbrida e tecnologias de disrupção sistémica, mas coexistiam dentro de uma lógica relativamente estável de contenção do risco.

A capacidade existia. O que prevalecia era a gestão dessa capacidade.

É precisamente aqui que reside uma das maiores transformações estratégicas da última década e, em particular, da era Trump. Não foi a criação de novas ameaças que alterou estruturalmente o sistema internacional. Muitas delas já existiam há muito tempo. O que mudou foi a forma de lidar com elas.

Donald Trump não criou esta transformação. A ascensão da China, o regresso da competição entre grandes potências, a erosão progressiva da ordem liberal internacional e as vulnerabilidades geradas pela globalização já vinham alterando o sistema internacional há vários anos. No entanto, foi provavelmente o primeiro líder ocidental a assumir explicitamente essa mudança e a agir politicamente como se a competição sistémica tivesse regressado como condição estrutural das relações internacionais.

Mais do que introduzir novas ameaças, Trump tornou legítima uma nova forma de lidar com elas: a passagem de uma lógica de administração do risco para uma lógica de confrontação do risco.

Esta mudança parece subtil, mas é tectónica.

Durante anos, a ordem internacional liberal assentou numa premissa essencial: evitar a escalada. Mesmo perante atores revisionistas, a prioridade era estabilizar, integrar, negociar, amortecer tensões e evitar ruturas sistémicas. A previsibilidade era considerada um ativo estratégico em si mesmo.

Donald Trump tornou explícita a rutura com essa arquitetura.

Ao invés de procurar absorver tensões, passou a instrumentalizá-las. Ao invés de reduzir a incerteza, utilizou-a como ferramenta de poder. A disrupção deixou de ser um efeito colateral e passou a constituir um método político e estratégico.

A relação com a China é talvez o exemplo mais evidente. O problema da dependência industrial americana não nasceu com Trump. O desequilíbrio comercial, a transferência tecnológica e a ascensão chinesa são conhecidas há décadas. O que mudou foi a decisão de abandonar a lógica de acomodação estratégica e assumir uma lógica explícita de competição sistémica.

O mesmo ocorreu relativamente à NATO, ao comércio internacional, ao Irão, à energia ou às cadeias de abastecimento críticas. A mensagem implícita deixou de ser “como estabilizar o sistema” e passou a ser “como vencer dentro de um sistema instável”.

Isto teve consequências profundas.

Primeiro, acelerou a fragmentação da ordem internacional. Muitos Estados perceberam, (ou estão ainda a perceber), que a era da previsibilidade estratégica terminou. O risco deixou de ser apenas algo a mitigar e passou a ser um instrumento de pressão e negociação.

Segundo, alterou o comportamento dos próprios aliados. A Europa começou lentamente a compreender que a dependência estratégica tem custos existenciais. O debate atual sobre autonomia estratégica europeia, reindustrialização da Defesa, soberania tecnológica ou resiliência energética nasce precisamente desta perceção: o mundo entrou numa fase em que as garantias deixaram de ser absolutas.

Terceiro, normalizou a ideia de confrontação permanente. Não necessariamente militar, mas económica, tecnológica, financeira, informação e infraestrutural. O conflito deixou de ser um estado excecional e passou a integrar o funcionamento normal da competição internacional.

A guerra na Ucrânia, a crescente rivalidade sino-americana, a instrumentalização das cadeias de abastecimento, as disputas tecnológicas em torno dos semicondutores e a utilização de sanções, tarifas e infraestruturas críticas como instrumentos de poder demonstram que a confrontação deixou de ser uma exceção para se tornar uma característica estrutural do ambiente estratégico contemporâneo.

É por isso que o verdadeiro legado estratégico da era Trump talvez não resida nas decisões concretas que tomou, mas na mudança de paradigma que tornou explícita e acelerou. A competição entre grandes potências deixa de ser entendida como uma realidade a conter e passa a ser assumida como uma condição estrutural do sistema internacional.

Depois dessa mudança, já não basta possuir capacidades. É necessário demonstrar disponibilidade para as utilizar, testar limites, gerar imprevisibilidade e explorar vulnerabilidades adversárias.

Vivemos, assim, numa era em que o poder já não se mede apenas pela capacidade de proteger. Mede-se também pela capacidade de assumir riscos, gerar incerteza e explorar vulnerabilidades.

O problema é que sistemas internacionais assentes numa confrontação permanente tendem a produzir mais volatilidade, mais fragmentação e mais erros de cálculo.

E talvez seja precisamente aí que reside o maior desafio do nosso tempo. O risco estratégico não desapareceu. Mudou de função. Deixou de ser apenas algo a evitar e tornou-se um instrumento de poder. E quando o risco passa a fazer parte da própria equação estratégica, a estabilidade deixa de ser o estado natural do sistema internacional.

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