A pandemia que pode vir de ‘omnibus’

Tiago Fleming Outeiro

Diretor da Faculdade de Medicina e Ciências Biomédicas, Universidade do Algarve

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A doença de Parkinson é a doença neurológica em mais rápido crescimento, estimando-se que venha a afetar 25 milhões de pessoas em 2050 - seria 2,5 vezes a população inteira de Portugal, o que é assustador de pensar!

No meio das pessoas que estudam a doença de Parkinson, falamos até que se trata de uma pandemia, pela gravidade do problema. Parkinson é uma doença democrática, que afeta ricos e pobres, conhecidos e desconhecidos - pode afetar cada um de nós, e não sabemos ainda prever quem vai ser afetado.

Mas, então, por que está a crescer tanto o número de pessoas com Parkinson? O aumento da longevidade é um dos fatores, já que vivemos mais tempo. Mas sabemos que a exposição a fatores ambientais é um fator importantíssimo, sendo que a exposição a vários pesticidas é um fator determinante. Em alguns países, a doença de Parkinson é já reconhecida como uma doença profissional, associada à atividade agrícola.

Como todos sabemos, por experiência própria, a Comissão Europeia é uma máquina burocrática tremenda. Recentemente, numa tentativa de simplificar procedimentos e reduzir encargos administrativos, foi apresentada a Proposta 2025/0410 (COD), que pretende ser um pacote de simplificação e reforço da segurança alimentar e dos alimentos para animais.

Apesar de eu ser sempre a favor da desburocratização, considero que esta proposta levanta sérias preocupações relativamente ao princípio da precaução, nomeadamente ao eliminar avaliações periódicas de pesticidas e limitar o âmbito das provas científicas usadas na avaliação da segurança. Por tocar nesta questão dos pesticidas, levantando pontos de avaliação importantes, a proposta pode adicionar mais combustível no motor do ‘omnibus’ da pandemia de Parkinson, agravando ainda mais um problema para o qual não temos, ainda, solução.

A questão é que a doença de Parkinson é uma doença de progressão “lenta” que, normalmente, se manifesta depois dos 65 anos (apesar de inúmeros casos precoces, em pessoas na casa dos 30-40 anos - ver www.youngparkies.pt). Assim sendo, torna-se ainda mais importante termos mecanismos para avaliar o impacto de fatores cujos impactos a ciência pode demorar anos a demonstrar de forma cabal, salvaguardando a saúde pública.

Importa também realçar que o potencial impacto desta proposta não se limita à doença de Parkinson (como se isso não fosse já suficiente). Há muitas outras doenças associadas à exposição a este tipo de compostos químicos, pelo que devemos ficar ainda mais preocupados.

A Associação Portuguesa de Doentes de Parkinson, juntamente com outras parceiras Europeias, está a alertar para este problema e, mais importante, a sugerir um conjunto de medidas que protejam a saúde pública sem comprometer os aspetos positivos da proposta numa carta aberta - todos queremos menos burocracia, incluindo os doentes de Parkinson, cujas vidas não são, de todo, facilitadas.

Como sempre, importa examinar os temas à lupa da ciência, e importa investigar e ouvir o que nos diz a ciência. E a evidência científica diz-nos, sem margem para dúvidas, que este é um problema sério, em particular na doença de Parkinson.

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