A palavra de prata e o silêncio de ouro

Nuno Vinha

Diretor-adjunto do Diário de Notícias

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No cinema, o silêncio é uma ferramenta poderosa. O silêncio cria tensão ou empatia; revela ou adensa segredos; expõe, só através de uma expressão, um gesto ou mero contexto, o lado mais luminoso ou negro de uma personagem. O abraço silencioso de Michael Corleone ao irmão Fredo, num baile de fim de ano em Havana, disse mais sobre o destino (bem diferente) de ambos do que qualquer discurso. Uma só palavra já estaria a mais. A magia de um silêncio bem aplicado, no tempo certo, é que consegue traduzir de forma universal as mais belas ou horríveis emoções humanas. No cinema, como na vida, o silêncio é, de facto, uma ferramenta poderosa. Na política não é diferente.

Este domingo, na Universidade de Verão do PSD, o primeiro-ministro escolheu com cuidado os temas do seu discurso. E escolheu com ainda maior cuidado o que iria deixar de fora.

Confrontado com a crise nos Exames Nacionais e uma (anunciada) moção de censura do Chega devido às múltiplas polémicas a envolver o ministro da Administração Interna, Luís Neves, Luís Montenegro organizou a sua defesa em duas linhas.

"Este domingo, na Universidade de Verão do PSD, o primeiro-ministro escolheu com cuidado os temas do seu discurso. E escolheu com ainda maior cuidado o que iria deixar de fora."
"Este domingo, na Universidade de Verão do PSD, o primeiro-ministro escolheu com cuidado os temas do seu discurso. E escolheu com ainda maior cuidado o que iria deixar de fora." FOTO: Nuno Veiga

A primeira envolveu reunir forças numa posição mais recuada. Tendo percebido, e bem, o impacto real e bastante negativo da crise dos exames junto do eleitorado, incluindo o da AD, Montenegro recuou estrategicamente face ao passa-culpas do primeiro momento. Se inicialmente o primeiro-ministro aludiu a elementos dentro do sistema de Ensino que estariam a colocar entraves à reforma decidida pelo ministro Fernando Alexandre – uma crítica implícita à comunidade escolar – este domingo foi dia de “reconhecer que este processo não correu bem”.

Foi dia para “lamentar a perturbação” que o caos nos exames causou aos alunos e às suas famílias. E foi dia para tentar “enterrar o machado de guerra”, ensaiando uma pequena oferta de paz ao “agradecer a todos os diretores, a todos os professores classificadores e relatores e aos técnicos (…), cujo empenho foi essencial para mantermos a tranquilidade”.

Nada disto, no entanto, soou a desistência quanto ao ministro da Educação. Pelo contrário. Montenegro insistiu que o Governo – personificado no ministro com a tutela, Fernando Alexandre – teve a “determinação e a convicção de que o caminho era o caminho correto”. E enalteceu-lhe, implicitamente, a “coragem”, afirmando que esta era “mais uma” das muitas reformas que o PS nunca fez sair das gavetas, que “estavam cheias” precisamente por falta dela.

Para a polémica do ministro da Administração Interna, Luís Neves, e a moção de censura que a acompanha, Montenegro reservou a segunda linha de defesa: não reconhecer, para já, a sua existência, remetendo-se ao silêncio quase total.

“O primeiro-ministro escolheu com cuidado os temas do seu discurso. E escolheu com ainda maior cuidado o que iria deixar de fora.”

Ora este silêncio pode significar, por um lado, que Luís Montenegro – um político de convicções fortes, ali já a descair para o obstinado – não quis dar mais munições à “censura moderna” de que falou no Pontal. Falar de Luís Neves seria alimentar um dos casos mais bicudos que tem em mãos. E, inevitavelmente, afastaria (ainda mais) das primeiras páginas as novidades que anunciou: a introdução de IA e digitalização nos planos curriculares do ano letivo de 2027/2028 e a criação da nova Universidade de Bragança e Norte Interior.

Mas há uma outra leitura, a de que não vale a pena mobilizar reforços, recursos e até palavras para “defender” um flanco que está perdido. A questão agora poderá ser quando é que Montenegro admite mexidas no MAI e em que termos. E se, com o ultimato do Chega e até a posição do Presidente António José Seguro, o poderá fazer salvando a face.

Ou seja, em que termos haverá um abraço silencioso a Luís Neves e ao seu trajeto na Administração Interna.

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