A Índia e o mar

Leonídio Paulo Ferreira

Diretor-adjunto do Diário de Notícias

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Há dias, num artigo no DN, o embaixador da Índia em Portugal alertava para a chegada a Lisboa do INS Sudarshini, e falava de “um encontro entre duas civilizações marítimas”. Tive oportunidade de visitar o navio-escola indiano, já no Tejo, e ouvir Puneet R. Kundal sublinhar de novo a relação entre os dois países, e a transformação que trouxe ao mundo a chegada dos portugueses a Calicute no final do século XV. Na visita estava também o adido de Defesa, o coronel Rohan Falnikar, baseado em Roma. O embaixador, num breve discurso aos convidados, incluindo representantes da Marinha Portuguesa, referiu o simbolismo de ter visto do Restelo, onde vive, o INS Sudarshini a entrar no Tejo, passando frente à Torre de Belém.

Muito se pode dizer sobre Vasco da Gama e a Índia, desde o comandante do INS Sudarshini, N. Ravikanth, referir como as navegações portuguesas de há cinco séculos são estudadas pelos futuros marinheiros, até ao facto, já salientado pelo embaixador no artigo no DN, de o veleiro de três mastros ter sido construído num estaleiro na cidade de Vasco da Gama, em Goa. Relevante é, sem dúvida, que tenha sido um piloto do Gujarate, conhecedor da navegação na época das Monções, a ter feito a ligação entre a Costa Oriental de África e o Malabar, onde a Armada Portuguesa chegou a 20 de maio de 1498. Há uma versão que atribui a etapa final da descoberta do caminho marítimo para a Índia ao árabe Ibn Majid, mas historiadores como José Manuel Garcia, com quem conversei sobre o tema, garantem ter sido um piloto do Gujarate.

Com um litoral imenso, a Índia reivindica cinco mil anos de tradição marítima. “A Índia é uma geografia aberta pelo mar. Estamos contectados pelo mar a todos os outros, e estamos há milénios”, disse-me, em entrevista em 2024, numa visita a Lisboa, Shivshankar Menon, que foi Conselheiro de Segurança Nacional da Índia.

O INS Sudarshini é um embaixador flutuante da Índia. Tal como a Sagres o é para Portugal. E uma escola também. “Apesar de contarmos com a mais recente automação e tecnologia, ensinamos aos cadetes astronavegação, navegação celeste e localização visual de embarcações sem o uso de GPS, além de como se comunicar visualmente com qualquer outra embarcação que cruze o nosso caminho no mar. Temos todos os equipamentos modernos disponíveis, mas é importante que os cadetes compreendam como a navegação era antigamente, quando nenhuma dessas tecnologias existia”, explicou o comandante.

FOTO: Paulo Spranger

Os oficiais formados no navio-escola vão prestar serviço numa Marinha que já é das maiores do mundo. Hoje a Marinha Indiana tem dois porta-aviões ao serviço e três submarinos de propulsão nuclear, expoentes de uma frota que até 2035 deverá atingir os 200 navios de guerra. É uma meta ambiciosa do governo de Narendra Modi, e um esforço tremendo. O que significa que os indianos sabem que a construção da prosperidade passa pelo comércio, sobretudo marítimo, e que a capacidade de garantir a segurança de navegação tem de estar à altura de um país que é já o mais populoso, quarto maior PIB e aquele entre as grandes economias que mais cresce, e potência nuclear. E candidato a assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas, pretensão que Portugal apoia.

Estados Unidos, ainda com claríssima vantagem, e China são hoje os países com Marinhas de Guerra mais poderosas. E que continuam a crescer. Os principais países da Europa Ocidental também se esforçam por contar no mar, assim como a Rússia. Tal como o Japão, a Coreia do Sul, a Indonésia e a Austrália, só para realçar o chamado Indo-Pacífico, cada vez mais central geopoliticamente. E mesmo Portugal, pela sua geografia, sabe que uma Marinha moderna é essencial para a defesa da soberania e para o esforço coletivo de proteção da liberdade nos oceanos, e está a investir nisso.

Quando grandes e pequenos países olham para o valor económico do espaço oceânico, para os interesses conflituosos e também para o impacto de disrupções como a que no passado causaram no Índico os piratas da Somália e hoje causam os Houthis no Mar Vermelho, já para não falar do arrastar da grave crise em Ormuz enquanto Estados Unidos e Irão não se entenderem, percebe-se esta aposta da Índia numa Marinha forte. É, aliás, o único país que dá nome a um oceano.

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