A Assembleia Geral das Nações Unidas não teve grande novidade. Houve quem aproveitasse o palco apenas para se dirigir ao país que governa. Houve quem tomasse a palavra para reforçar linhas de política externa conhecidas de todos. E houve, como sempre, quem defendesse agendas regionais mais ou menos utópicas.
Entre arengas e apelos à paz, quase todos proclamaram ideias universais de difícil aplicação prática. A avaliar pelo reportório e pela coreografia da reunião, o mundo mudou pouco.
Ainda assim, dois personagens sobressaíram, embora por razões opostas. António Guterres fez um discurso de despedida que oscilou entre a frustração e a admissão de derrota. O seu mandato fica marcado pela incapacidade de se entender com a realidade do mundo.
Depois, Delcy Rodríguez, presidente interina da Venezuela, um caso de manifesto êxito. Em grande parte, por algo muitas vezes esquecido nas análises políticas: a importância dos aspectos formais, até cénicos, da diplomacia.
Após anos sob sanções europeias e norte-americanas, a presidente venezuelana pousou sorridente em fotografia oficial com Donald Trump, cuja expressão era de igual satisfação. Com os dedos, Delcy fez o ‘V’, de vitória, gesto habitual no ex-presidente Nicolás Maduro, capturado e detido por tropas norte-americanas.
O gesto tem sido interpretado como uma poderosa mensagem de tranquilidade dirigida às fileiras chavistas: tudo continua na mesma, sosseguem; até temos o respaldo do presidente dos Estados Unidos da América.
Delcy mostrou uma ductilidade cervical sobejamente conhecida. Passou de ultra do regime, que vociferava contra o “imperialismo yanki” e o “terrorismo de Estado” de Washington, a feliz interlocutora dos Estados Unidos na Venezuela.
Quanto a Trump, sempre mostrou o seu escasso compromisso com a democracia na Venezuela. Nunca quis derrubar o regime, somente encontrar uma liderança mais amena.
Nada disto é novo, é certo, mas nada disto era assumido. A grande novidade trazida pela fotografia é que, a partir de agora, são pontos assentes e reconhecidos. Sem qualquer incómodo. Aqui, sim, nota-se que o mundo mudou.
A presidente venezuelana protagonizou outro momento onde a mise-en-scène também revelou posições políticas importantes. Delcy teve o mérito de destapar a simetria entre o carácter político de Donald Trump e o Pedro Sánchez.
Trump considerou o regime chavista uma séria ameaça à democracia e à segurança regional, arremessando-lhe adjectivos que nunca dirigiu à Rússia, à China ou até mesmo à Coreia do Norte. Mas em Nova Iorque pousou satisfeito com Delcy, plenamente consciente da função legitimadora da foto.
Já Pedro Sánchez nunca se incomodou com o regime de Hugo Chávez e Nicolás Maduro. Bem pelo contrário. Esteve, e está, no poder com admiradores confessos da ditadura caribenha. Nos idos de 2020, quando Delcy era persona non grata em todas as capitais europeias, um ministro de Sánchez recebeu-a no aeroporto de Madrid, um encontro polémico celebrado com a anuência do Chefe do Executivo espanhol.
No entanto, enquanto decorreu a reunião magna da ONU, Sánchez tudo fez para evitar um encontro com Delcy. Porventura sabedora da falta de vontade do presidente de Governo espanhol, Delcy atravessou a sala e aproximou-se de Sánchez, que, convenientemente, falava ao telefone, para o cumprimentar. O desconforto do presidente de Governo espanhol foi monumental.
A mudança radical nas atitudes de Trump e de Sánchez diz mais sobre a índole política destes dois homens do que sobre a respeitabilidade da mulher que manda na Venezuela. É que, no essencial, o regime venezuelano é o mesmo: autoritário, opressor e ilegítimo.
Com simples gestos, Delcy comprometeu Trump, o farol mundial da direita radical, e delatou Sánchez, o menino bonito do que ainda sobra da esquerda “progressista”. Tem, de facto, razões para sorrir.