O mundo está em acelerada mudança, passámos da Era dos banqueiros à Indústria bancária.Começo com um lugar-comum, uma evidência que nos traz uma pergunta: existirá um limite na rapidez da transformação, uma espécie de teto evolutivo? Ou, pelo contrário, a revolução tecnológica terá como consequência que o nosso destino coletivo nunca mais terá um porto de abrigo onde possamos descansar?Nestes artigos tento pensar sobre o mundo, trocar ideias acerca do que me inquieta, surpreende ou mobiliza. Sou sobretudo jurista de formação e lidero uma Caixa Agrícola que é a de maior balanço do país a operar num só concelho. Temos crescido muito, apresentaremos provavelmente os nossos melhores resultados em 111 anos de história, mas é necessária a humildade de nunca deixarmos de pensar sobre a imensidão do mundo, o que nos transcende e o que podemos travar num movimento que nos obriga a correr, desenfreadamente, sem cuidar do que pelo caminho vamos semeando.Proponho hoje que pensemos sobre a impossibilidade de existirem banqueiros como nós os reconhecíamos. Homens como Manuel Espírito Santo, no Estado Novo, e Jorge Jardim Gonçalves, depois de 1974, são irrepetíveis por uma soma de fatores.Olhemos para os dois. Manuel, filho do fundador do Banco Espírito Santo, e tio-avô de Ricardo Salgado, foi a figura maior da segunda geração da família. Durante décadas alimentou uma relação com Salazar, encontravam-se todas as sextas-feiras em São Bento. Contava do mundo ao presidente do Conselho – o que se passava nos lugares dos ricos, como funcionava a economia real e a razão para apoiar determinados projetos em função de um instinto. Salazar pediu-lhe várias coisas, foi assim que nasceu o Ritz, o primeiro hotel que não nos embaraçaria na comparação com os melhores do mundo.Jardim Gonçalves, não sendo, como Manuel, o dono do capital, fundou o BCP e transformou-o no maior banco privado português. Tinha vindo do Banco de Agricultura e do Atlântico e foi responsável por uma revolução informática que mudou toda a face do negócio. A essa competência juntou operações com risco e ousadia… através de OPAs e da internacionalização para a Grécia, Polónia e Holanda, desafiou a então habitual placidez da nossa banca. Jardim tinha uma vida como engenheiro, estivera na Guerra Colonial e fazia questão de tratar todos os funcionários pelo nome.Um e o outro eram uns senhores. Tinham uma cultura humanística, um pensamento próprio e conhecimento prático da vida. Sabiam sobre o ser humano, eram patriotas e acreditavam nos centros de decisão.Aliás, como Rui Vilar e Artur Santos Silva, numa outra dimensão. Ser banqueiro era um modo de ver a vida, com princípios ancorados e uma relação comercial que alimentava a confiança e o respeito. Curiosamente, Vilar e Santos Silva, passaram os dois, no final da sua vida, dos bancos, para a liderança da Fundação Gulbenkian.Os dois, como António Champalimaud, que doou a legítima da sua herança para que nascesse uma fundação, procuraram uma correção social, a devolução à comunidade e ao país do que este lhes proporcionara. Mesmo Champalimaud, ressentido com Portugal, quis que fosse assim, ajustou as contas e apaziguou o seu percurso.Era a ética de então e a cultura de risco que sempre existiu. Sendo eu presidente de uma cooperativa, não posso deixar de me sentir parte desse movimento nacional financeiro e social, a essência do cooperativismo.Sim, os banqueiros morreram. Ou melhor, os banqueiros foram soterrados pelo que o tempo pede. O dinheiro é emprestado a quem cumpre o algoritmo e a margem de decisão dos líderes diminuiu – apresentar um bom projeto inovador deixou de ser o suficiente. Quem decide sobre a banca são políticas, regulamentos, normativos, determinados na maioria dos casos fora do país, com justificativo na ideia de união bancária.A humilhação pública a que o país foi sujeito nos tempos da troika descredibilizaram as nossas Instituições financeiras e foi importante "reganhar" a confiança através de modelos de risco credíveis.Não há, assim, margem para surgirem iluminados ou senhores — o que se pede é que os bancos sejam liderados por quem respeite as regras e seja tecnicamente competente. Jardim Gonçalves atualmente não teria podido socorrer o Grupo Jerónimo Martins, após o fracasso da operação no Brasil, e João de Oliveira, do Banco Atlântico, não teria apoiado o Grupo Sonae, permitindo que ganhasse escala nacional e europeia. Com estes dois exemplos, percebe-se quanta riqueza o país teria perdido pois são os maiores empregadores. Um banco antecipa tempo, cria futuro.Não há banqueiros porque, hoje, ter um pensamento não é essencial. A cultura deixou de ser uma preocupação central das instituições financeiras. Não há banqueiros desde que se começou a dizer que o dinheiro não tem pátria. Ou quando os funcionários passaram a ser colaboradores descartáveis – os banqueiros conheciam quem trabalhava, conheciam o nome dos funcionários e sentiam o banco como seu, eram família. Isso deixou de existir, é passado.Em Lisboa, os bancos desapareceram da Rua do Ouro, foram substituídos por hotéis. A internacionalização da banca, e também dos maiores escritórios de advogados, levou a que o país ficasse sem segredos, até pela impossibilidade de ter onde os guardar.Quem me lê é capaz de, a esta altura, apostar que sou pessimista. Que preferia o passado, em que os banqueiros eram emocionalmente ricos e racionalmente preparados. Há uma parte do que sou, e no que tento ser, em que tal acontece. Mas nada é linear e é impossível travar o vento com as mãos.Na atividade bancária, simplificação e diversidade, proporcionalidade e especialidade, e inteligência não são proposições abstratas. A banca não é única, é diversa. A banca de poupança, de fomento, cooperativa e a comercial têm matrizes que justificam reflexão. Criar um modelo para a banca comercial e aplicá-lo aos restantes tipos de banca pode constituir um risco. Contrariar a nossa natureza nunca é inteligente.A supervisão ativa, intrusiva e inteligente das autoridades centrais nacionais é fundamental na defesa dos clientes, dos bancos e do país. O supervisor português e as suas equipas têm feito trabalho que merece elogios, têm sabido lidar com a diversidade bancária.Mas, enquanto país, necessitamos de capital, investimento e inovação, e por isso há razões para não soçobrarmos ao pessimismo.E aí, o cooperativismo inteligente pode ser uma das vias de progresso.Escreverei como referi na minha primeira crónica sobre o futuro. E prometo que o peso da esperança, com ideias concretas, será Sempre maior do que o medo.