A montra brilha – os negócios é que não entram

Ana Jacinto

Secretária-geral da AHRESP

Publicado a

Infelizmente Portugal perdeu com a Espanha no Mundial. Mas nada de novo: o futebol tem destas ironias, e o país já aprendeu a viver entre o entusiasmo e a frustração. Mas há algo que permanece imutável, mesmo quando a bola não entra: a montra para o mundo continua a brilhar. E essa montra tem nome, rosto e impacto económico medido ao cêntimo - Cristiano Ronaldo.

O problema é que, enquanto a montra brilha, os negócios não entram. Ou entram pouco. Ou entram mal. Ou entram sem marca, sem narrativa, sem aquela aura que faz um produto valer mais do que a soma dos seus componentes. Ronaldo é uma marca global avaliada em 850 milhões de euros; os nossos setores exportadores continuam a vender qualidade a preço de saldo. A dicotomia é tão evidente que chega a ser cómica - ou trágica, dependendo do humor de quem observa.

Portugal produz calçado de excelência, mas cada par sai das fábricas por 27 dólares, enquanto o italiano se vende por 68. Não é o couro que explica a diferença - é a história. A capacidade de transformar produto em identidade, identidade em desejo e desejo em valor. A Itália faz isto há décadas. Portugal continua a acreditar que qualidade fala por si. Não fala. Nunca falou. E no mercado global, quem não conta uma história fica na prateleira.

Cristiano Ronaldo, por outro lado, é a história perfeita: ambição, disciplina, superação, longevidade, espetáculo. É a narrativa que o país nunca conseguiu construir para os seus setores económicos. Ele é a montra para o mundo; os nossos produtos são o corredor dos saldos. Ele é premium; nós insistimos em ser discretos. Ele é storytelling; nós somos rodapés.

O turismo, felizmente, já percebeu isto. Em 2025, Portugal recebeu 32,5 milhões de hóspedes e gerou 29,1 mil milhões de euros em receitas. Mas reduzir o turismo a camas vendidas é não perceber o que ele realmente é: a maior máquina de marketing nacional.

Cada turista satisfeito volta para casa como um embaixador informal, mais disposto a pagar bem pelos nossos produtos. O estudo polaco que demonstrou o “efeito de spillover” não deixa margem para dúvidas: promover o destino melhora a perceção do país, do povo, do governo e – crucialmente - dos produtos.

Cabo Verde, no Mundial, deu uma lição ao mundo: aproveitou o palco. Transformou a sua estreia numa operação de marketing nacional. Mostrou cultura, gastronomia, paisagens, histórias de superação. Em poucos dias, o mundo passou a saber onde fica. Portugal, com Ronaldo, tem uma montra infinitamente maior – mas continua a não saber o que colocar lá dentro.

A verdade é simples: não nos falta talento, falta-nos narrativa. Falta-nos transformar setores inteiros em marcas. Falta-nos ambição estética, simbólica e económica. Falta-nos perceber que, no mercado global, qualidade é apenas o ponto de partida – nunca o argumento final.

Ronaldo perdeu ontem com a Espanha. A montra não perdeu nada. Continua a brilhar. O desafio é fazer com que os negócios finalmente entrem.

Diário de Notícias
www.dn.pt