A moderação venceu. O trabalho difícil começa agora

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O centro moderado venceu as eleições presidenciais, demonstrando que a maioria dos portugueses continua a valorizar a democracia, a contenção e o respeito pelas regras estabelecidas na nossa Constituição. Num tempo marcado pelo ruído, pela polarização e pela importação acrítica de discursos radicais, este resultado constitui um sinal claro de maturidade política e de confiança nas instituições.

A vitória do centro revela algo essencial: a maioria das pessoas não deseja uma democracia permanentemente em tensão, nem uma política reduzida ao confronto moral. Prefere estabilidade, previsibilidade e líderes capazes de exercer o poder com contenção. Mas seria um erro trágico interpretar este resultado como um ponto de chegada. Na realidade, a vitória de António José Seguro marca o início de uma fase ainda mais exigente.

Se quisermos proteger a democracia em Portugal, é indispensável reconhecer que a moderação, por si só, não basta. A moderação só é politicamente sustentável quando anda de mãos dadas com a eficácia da governação. Sem resultados concretos na vida das pessoas, a moderação arrisca transformar-se em mera retórica defensiva, vulnerável à crítica fácil dos extremos.

Governar hoje é um exercício intrinsecamente complexo. As sociedades contemporâneas enfrentam desafios interligados como a demografia, a sustentabilidade, a tecnologia ou as desigualdades sociais, que não admitem soluções simples, nem respostas ideológicas. Políticas públicas eficazes exigem base científica, análise rigorosa, avaliação contínua e capacidade de correção. A governação responsável não se faz por intuição, nem por slogans, mas por decisões informadas e por escolhas difíceis, assumidas com transparência e seriedade.

Quando a política abdica do conhecimento e substitui a evidência pela convicção, o espaço público degrada-se e a confiança dos cidadãos enfraquece. É precisamente nesse vazio que prosperam os discursos populistas, alimentados por falsas promessas e pela ilusão de soluções rápidas para problemas estruturais. A moderação perde credibilidade quando não entrega resultados.

Ao mesmo tempo, é indispensável que exista entendimento sólido nos domínios que afetam diretamente o bem-estar das pessoas. Saúde, Justiça, Educação ou habitação não podem continuar a ser reféns de ciclos permanentes de conflito partidário. Estes são pilares da coesão social e exigem compromissos estratégicos de médio e longo prazo, independentemente das alternâncias políticas. Governar ao centro não implica eliminar divergências. Pelo contrário, a discordância é parte constitutiva da democracia. Mas há uma diferença clara entre divergência civilizada e paralisia deliberada. Os partidos democráticos têm de reaprender a discordar sem deslegitimar, a debater sem destruir pontes e a reconhecer que a convergência estratégica em áreas fundamentais é uma condição de estabilidade democrática.

O centro venceu porque ofereceu moderação num momento de saturação do conflito. Agora terá de provar que essa moderação é compatível com governação eficaz. A democracia não se defende apenas nas urnas. Defende-se, sobretudo, na qualidade das decisões públicas e na capacidade de melhorar, de forma tangível, a vida das pessoas. Quando José Ortega y Gasset escreve “eu sou eu e as minhas circunstâncias”, lembra-nos que a política democrática falha sempre que ignora o contexto real em que vivem as pessoas. Ler as circunstâncias, compreendê-las e transformá-las em políticas eficazes é hoje o verdadeiro teste do centro. E, com ele, da resiliência da democracia portuguesa.

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