A inteligência artificial na Administração Pública: a soberania dos dados

António Jaime Martins

Advogado e sócio fundador da ATMJ - Sociedade de Advogados

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A transformação digital da Administração Pública portuguesa não pode ser conduzida apenas por critérios de eficiência, rapidez ou redução de custos. A introdução de sistemas de inteligência artificial no Estado envolve uma dimensão estratégica muito mais profunda: a soberania tecnológica e o controlo dos dados públicos. Num contexto geopolítico marcado pela centralização do poder digital em grandes operadores internacionais, a utilização de IA pelo Estado português exige soluções que garantam independência, segurança e domínio efetivo sobre a informação tratada.

O problema não é meramente técnico. Trata-se de uma questão de soberania nacional. Os dados tratados pela Administração Pública incluem informação tributária, clínica, judicial, policial, militar, financeira e administrativa dos cidadãos e empresas. A sua circulação, armazenamento ou processamento em infraestruturas sujeitas a jurisdições estrangeiras representa um risco evidente para a autonomia do Estado. Basta recordar que muitos dos grandes operadores tecnológicos estão sujeitos a regimes legais externos, designadamente ao CLOUD Act norte-americano, que pode permitir o acesso a dados armazenados por empresas americanas, ainda que localizados fora dos Estados Unidos.

Por isso, Portugal terá inevitavelmente de adotar uma de três vias complementares.

A primeira consiste na contratação de grandes operadores internacionais, mas impondo como condição essencial a utilização de servidores integralmente localizados em território nacional, com garantias jurídicas claras de segregação, encriptação e controlo soberano dos dados. Não basta que os dados estejam “na Europa”. É necessário que o Estado saiba onde estão, quem lhes pode aceder e sob que jurisdição efetiva se encontram.

A segunda via passa pela aposta em soluções nacionais de inteligência artificial. Projetos portugueses como o “Amália” ou o “Evaristo” representam um passo importante na criação de modelos linguísticos desenvolvidos em língua portuguesa e potencialmente adaptados às necessidades da Administração Pública. O desenvolvimento de software nacional não é apenas uma opção de natureza tecnológica. É uma decisão estratégica que permite reduzir dependências externas, criar conhecimento interno e garantir maior controlo sobre os algoritmos, os modelos de treino e os fluxos de dados.

A terceira solução consiste na utilização de modelos de IA executáveis localmente (“on premises”), sem dependência permanente da cloud pública. A evolução tecnológica já permite instalar modelos avançados em infraestruturas próprias do Estado, assegurando que os dados nunca abandonam os sistemas internos da Administração Pública. Em determinadas áreas sensíveis - v.g. justiça, defesa, segurança interna ou saúde - esta poderá ser mesmo a única solução compatível com um nível adequado de proteção institucional.

A questão central reside no facto de a inteligência artificial não ser apenas uma ferramenta de produtividade. Quem controla a infraestrutura, os modelos e os dados controla também uma parte significativa da capacidade de decisão futura do Estado. Um país que entrega integralmente a terceiros estrangeiros o processamento da sua informação pública abdica progressivamente da sua autonomia tecnológica e institucional.

A União Europeia tem vindo a reconhecer esta realidade. O Regulamento Europeu da Inteligência Artificial (AI Act), bem como as políticas europeias de soberania digital, caminham precisamente no sentido de reforçar a transparência, o controlo e a segurança dos sistemas utilizados por entidades públicas. Portugal não pode ficar reduzido ao papel de mero consumidor passivo de soluções desenvolvidas no exterior.

A Administração Pública deve, por isso, adotar uma estratégia híbrida e prudente: utilização de infraestruturas soberanas, incentivo ao desenvolvimento nacional de IA e implementação de soluções locais sempre que estejam em causa dados sensíveis. A soberania dos dados deixou de ser uma preocupação meramente tecnológica. É hoje um requisito essencial de independência de qualquer democracia.

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