A igualdade de género em terreno movediço

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Há momentos na História em que parece que os direitos que nos faltam estão todos ao nosso alcance. Mas há outros em que a sensação é a de caminharmos num terreno movediço. Os direitos das mulheres vivem hoje nesse território ambíguo: entre conquistas que ainda parecem sólidas e ameaças de retrocesso que se insinuam no quotidiano, além dos problemas persistentes que nunca conseguimos resolver.

Para começar, o elementar direito de acesso à saúde sexual e reprodutiva, que parecia consolidado há décadas, volta a ser questionado em vários países, dos Estados Unidos ao Uganda, passando pela Hungria.

É verdade que a violência doméstica passou a ser criminalmente punida e os direitos das vítimas foram reforçados. Mas ela permanece como a sombra mais persistente, sem escolher idade, profissão ou lugar. Adapta-se aos tempos: já não está apenas dentro de casa, infiltra-se nos ecrãs e nas redes sociais, onde a agressão se disfarça de cobarde anonimato. Para muitas mulheres, a liberdade continua condicionada pelo medo - medo de denunciar, de não serem acreditadas.

Há, sem dúvida, muito mais mulheres no mercado de trabalho e em posições de direção, graças também à legislação aprovada em Portugal, em 2017, e depois na União Europeia. Mas mantém-se a desigualdade de remuneração e surgem desafios novos, próprios do século XXI: algoritmos que reproduzem preconceitos, nomeadamente na seleção para empregos, e profissões tecnológicas, onde as mulheres continuam sub-representadas.

O mais preocupante é que a carreira profissional e a autonomia das mulheres continua a ser travada por uma cultura social dominante que faz pesar sobre elas a maior parte dos cuidados familiares: dos filhos, dos pais, dos amigos vulneráveis. É um trabalho gratuito e invisível, ignorado por muitos homens, que consome o tempo que deveria ser dedicado à vida pessoal - ao lazer, ao convívio, ao descanso - ou investido na vida profissional.

O pior é que estes hábitos estão profundamente enraizados, pelo que só podem ser contrariados por uma mudança cultural, por definição lenta. São precisos mais programas como o “Cuidadores por um dia”, para ensinar, desde cedo, que cuidar não se conjuga apenas no feminino: “Hoje cuidas tu, amanhã cuido eu.”

Quem dera que prevalecesse a certeza de que a igualdade não é apenas uma causa das mulheres, mas uma condição para sociedades mais justas e prósperas. Mas nem isso está garantido. Vozes adversas, que antes se escondiam atrás de uma cortina de vergonha, falam agora alto, até nos Parlamentos. A cada debate reacendido, mais mulheres percebem que nada é definitivo: que aquilo que foi conquistado pode ser retirado e que o caminho para igualdade pode recuar, em vez de avançar. Contudo, mesmo com alguns direitos a tremer, a esperança numa igualdade efetiva tem raízes profundas e História demais, para ceder.


(Dedicado a todas e a todos que se bateram pelos direitos das mulheres).

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