A idade da inocência e o grito pelo futuro

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Em diferentes países do espaço europeu estão a acontecer manifestações de jovens. Em Portugal, na França, em Espanha, na Bélgica, na Albânia, na Itália e na Sérvia.

O que explica o despertar destes movimentos? Qual o traço comum que liga e dá sentido a esta atitude de jovens em diferentes geografias.

Na espuma dos dias está mais visível, nos media e aos olhos da opinião pública, a violência, a devastação, o assalto, os saques ao pequeno comércio ou às grandes superfícies, a destruição da propriedade privada, os incêndios de viaturas e estruturas públicas. Tudo actos condenáveis, inaceitáveis e, certamente, orientados por grupos de provocadores que se aproveitam da justificada revolta dos jovens para introduzirem violência e vandalismo nas manifestações. E que, felizmente, não se verificaram em Portugal.

Mas na profundidade dos acontecimentos há razões sociais que explicam as manifestações de jovens. Imaginem-se os caros leitores com a idade de 17 ou 18 anos. Imaginem as dificuldades do vosso presente e a incerteza do vosso futuro. A carência de professores e a falta de condições nas escolas, como em França ou na Bélgica. Ou, também, em Portugal com a dificuldade de tirarem um curso superior e depois, se o conseguirem, a quase impossibilidade em arranjarem um emprego com um salário digno.

Ou imaginem, ainda, caros leitores, em Espanha ou em Portugal, onde vão encontrar uma habitação que vos permita constituir família, terem o vosso espaço próprio. Ou insistindo na vossa capacidade de imaginação, na inocência recriada dos vossos 17 ou 18 anos, constatarem o facto de terem de se organizarem para combaterem a existência de governos corruptos, como na Albânia ou na Sérvia.

É uma absoluta ausência de futuro para os mais jovens que explica o que se passa, actualmente, no espaço europeu. Uma Europa que se vai vergando a formas de capitalismo selvagem e perdedor, de baixos salários, onde as oligarquias se vão apossando dos destinos diferentes países, das suas riquezas. Onde abundam políticos corruptos, miseráveis oportunistas, que tomam o poder para seu proveito próprio.

Como na Albânia ou em Portugal, onde os sedutores areais das mais belas praias vão sendo entregues pelo poder político à exclusividade dos mais ricos. Sim, na Albânia ou na Península de Tróia. Em Tirana, capital albanesa, dezenas de milhares de jovens saem à rua exigindo a demissão de Edi Rama, um primeiro-ministro corrupto que quer entregar a costa sul do país, zona protegida, para a construção de um resort de luxo propriedade de Jared Kushner, genro de Trump.

E na Sérvia onde uma lista de estudantes acabou de vencer as eleições legislativas conquistando 140 lugares no Parlamento, com 2,2 milhões de votos, e que derrotou o Partido Progressista Sérvio de ditador Aleksandar Vucic no poder há 14 anos.

Um movimento de jovens estudantes que teve origem na queda da cobertura da estação ferroviária de Novi Sad, que matou 16 pessoas e se constatou ter origem na fragilidade e escassez dos materiais utilizados por razões de corrupção. Uma Sérvia que fica agora entregue a jovens que tiveram a capacidade de se organizar e tomar nas suas mãos os destinos do país.

Não podemos, pois, reduzir as diversas manifestações de jovens que estão acontecer no espaço europeu à camada superficial expressa na violência e na destruição. Há no profundidade destes movimentos razões de índole social que se explicam pelo comportamento dos dirigentes políticos, na sua incapacidade de darem sentido ao futuro dos mais jovens. O direito à Educação, à Habitação, a um emprego digno não estão no seu horizonte. Espera-os ao longo da vida um percurso de incertezas, dificuldades e ameaças à sua estabilidade.

Não espanta, pois, que estes jovens percam o que lhes resta da idade da inocência e venham para a rua lançar um grito pelo futuro que não vislumbram no horizonte das suas vidas.