A IA na Universidade: lutando contra a irrelevância do pensamento humano

Ana Rita Gil

Professora da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Investigadora do Lisbon Public Law

Publicado a

A imagem é esta: um professor universitário vigia um exame afogado numa muralha de mochilas e num mar de telemóveis. Pediu aos alunos que entravam na sala, qual segurança de aeroporto, que deixassem telemóveis, smartwatches e outros dispositivos eletrónicos à entrada, e seguissem para o lugar apenas com a caneta e a folha de exame. Assim o fez porque, nos Mitos e Lendas dos Copianços da Faculdade, correm agora novas histórias: a de alunos que dialogam com o ChatGPT pelo telemóvel ou pelo relógio durante os exames.

Um passeio pelas bibliotecas universitárias mostra que são muitos, muitos mais do que o desejável, os alunos que trocaram os livros pelo ChatGPT. Mas um estudo da Microsoft e da Carnegie Mellon University sugeriu que uma maior confiança em ferramentas de IA pode associar-se a menor exercício de pensamento crítico. Já outro estudo experimental concluiu que a IA pode melhorar o desempenho no imediato, mas que, retirada essa ajuda, os utilizadores mais dependentes tendem a ter piores resultados do que aqueles que não recorriam a essas ferramentas.

Cruzei estes dados com um comentário que um dia ouvi de um jurista, e que me chocou: “Já não contrato advogados juniores. Para quê, se o ChatGPT sai mais barato?” Perante isto, passei a adotar nas aulas um discurso moralista que deve ser enervante, mas que acho ser meu dever: lembrar que os alunos que se autorreduzem à IA estão a ditar a sua própria irrelevância futura.

É importante que os estudantes, sobretudo nas Humanidades, percebam que é o seu espírito crítico, a sua sensibilidade, os seus talentos e a sua voz irrepetível que os distinguem dos simples modelos de linguagem. É isso que determinará se acrescentam alguma coisa ao mundo.

No entanto, apesar de repetir este mantra como um disco riscado por todas as turmas, pululam sinais em sentido contrário. Posts, artigos, comentários e colunas de opinião, feitos com IA, continuam a ser divulgados incessantemente. As fórmulas repetem-se até à exaustão. Uma das mais usadas é esta: “Isto não é apenas uma questão de x. É y.” E, depois, as frases curtas e pseudo-profundas, com pretensões a uma verdade inabalável. Tudo isto é cansativo. Parece que já ninguém se dá ao trabalho de formular uma frase que seja. Como estamos a apagar assim o nosso eu, cedendo o nosso nome a uma coisa produzida por uma ferramenta?

Espero que esta seja apenas uma fase transitória. Tal como as calculadoras não eliminaram a necessidade dos matemáticos, também o pensamento humano continua a ser insubstituível. Treinar mentes críticas, capazes de pensar, avaliar e acrescentar um valor próprio ao que já é feito pelas máquinas, é hoje, mais do que nunca, a missão da universidade.

Diário de Notícias
www.dn.pt