A UNESCO reuniu 21 textos sobre Inteligência Artificial e Educação. Há ideias interessantes: o fim da avaliação como a conhecemos, agentes inteligentes, aprendizagem personalizada e cocriação entre humanos e máquinas. Mas o conjunto hesita precisamente onde deveria romper. Reconhece a disrupção e, logo depois, tenta acomodá-la na escola que já existe. Não é assim que se trabalha com IA. Assim é como discutir o automóvel pensando em melhores ferraduras.
Primeiro ponto: o professor. O professor do futuro não será um transmissor de conteúdos. Competir com uma máquina que sabe mais, responde mais depressa e está disponível permanentemente seria intelectualmente absurdo. Também não será apenas um “facilitador”, essa palavra gira que permite mudar o nome sem mudar a função. Terá de ser um fazedor de experiências, um curador da inteligência, um provocador das perguntas, um treinador de pensamento e um garante de exigência. Menos proprietário da resposta (muito menos); mais responsável pela qualidade do raciocínio. Talvez ensine menos matéria. Terá, seguramente, de ensinar mais critério. Terá também, seguramente, de conseguir explicar a beleza de estarmos juntos e socializarmos.
Segundo ponto: o ensino. Não pode continuar organizado por disciplinas estanques, aulas iguais, horários industriais e exames que premiam a reprodução. Com IA disponível a cada estudante, aprender poderá significar investigar problemas reais, simular decisões, construir soluções, testar hipóteses e trabalhar com equipas híbridas de pessoas e agentes. O currículo deixa de ser uma lista de conteúdos. Passa a ser uma sequência de desafios. Leste bem. Desafios. A avaliação deixa de perguntar “o que sabes?” e passa a verificar “o que consegues compreender, decidir, criar e defender?” Óbvio, com o que sabes, mas sem que to perguntem de forma direta.
Terceiro ponto: a forma de pensar. Uma disrupção não se enfrenta acrescentando uma ferramenta nova a um modelo velho. Não basta colocar IA na aula, como antes se colocaram computadores, plataformas e quadros interativos nas salas. Isso é digitalizar a irrelevância. Os frameworks que criaram a escola industrial não desenharão a escola da inteligência aumentada.
Nada, nada mesmo, passa por proteger o ensino da IA. É como proteger os alunos de um ensino que continua a fingir que a IA não mudou tudo.
Se mantivermos a escola e apenas lhe acrescentarmos Inteligência Artificial, teremos máquinas do futuro a sustentar instituições do passado. E esse será o verdadeiro fracasso: não sermos substituídos pela IA, mas permanecermos iguais apesar dela. Aí é que a IA nos irá “comer de fricassé!”