Foram vários os deputados do PSD e da direita a fazer comentários críticos à deslocação de José Luís Carneiro à Venezuela. Uma atitude estranha, porque dois dias depois o diretor regional das Comunidades Madeirenses aterrava em Caracas e, logo a seguir, o secretário de Estado das Comunidades também, com programas praticamente idênticos. Parecia uma competição para ver quem chegava primeiro, quando a defesa da comunidade portuguesa devia ser encarada por todos como um desígnio nacional.Alguns dos críticos da deslocação chegaram mesmo a proclamar a ideia absurda de que se tratava de uma legitimação do regime. Com efeito, o líder do PS não ficou à espera que fossem retomados os voos da TAP para Caracas e, antes de todos, foi apelar à libertação dos detidos, usando para isso os melhores canais, que são os luso-venezuelanos em posições de destaque nas instituições políticas, e pedir proteção para a importante e influente comunidade luso-venezuelana, motor da vida económica do país, e mais atenção para os milhares de compatriotas que vivem em grande precariedade social. Coincidência ou não, a verdade é que, dois dias depois de a delegação do PS ter deixado Caracas, a Lei da Amnistia foi prorrogada por mais 30 dias, o que abre a esperança na libertação dos detidos luso-venezuelanos.Em muitos dos comentários críticos, ressaltava não apenas indiferença relativamente aos anseios e expectativas da comunidade, mas também um certo alheamento quanto às transformações atualmente em curso na Venezuela. Por mais detestável que fosse Nicolas Maduro, a sua captura não deixa de ser uma violação do Direito Internacional e jamais poderia ser classificada como benigna, como disse o ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel.Em boa verdade, a Venezuela, após a captura de Maduro,está a mudar, particularmente devido ao alívio das sanções por parte da Administração Trump e ao reconhecimento do Governo de Delcy Rodriguez, a quem foram também já levantadas as sanções, sendo previsível que o mesmo venha a acontecer por parte da União Europeia.Não deixa de ser incongruente que os mesmos críticos da deslocação do líder do PS tenham mantido o silêncio sobre a legitimação e o levantamento das sanções a Delcy Rodriguez, bem como sobre os encontros institucionais dos representantes do Governo da República e da Região Autónoma da Madeira. E muito menos se ouviram críticas a uma qualquer legitimação do regime quando o secretário de Estado das Comunidades disse que o Governo Português está disposto a ajudar a Venezuela no processo de transição política, como, aliás, fez também José Luís Carneiro. Em vez de tanta e tão patética hipocrisia política, mais valia que uma coisa tão importante como são as relações entre Portugal e a Venezuela e o apoio e acompanhamento à comunidade portuguesa pudessem suscitar a convergência entre as várias forças políticas.Como foi referido por empresários luso-venezuelanos nos Altos Mirandinos, é da maior importância que se promovam canais de diálogo bilaterais, contribuindo assim para que haja mais previsibilidade nos investimentos e na atividade económica e que a comunidade seja mais valorizada.Vale a pena recuperar o que disse José Luís Caeiro no encerramento do XXV Congresso do PS, referindo-se à sua deslocação à Venezuela: “Estive junto dos nossos e assim será sempre! Estarei sempre mais perto de quem está mais longe.”