A guerra silenciosa de que ninguém fala

Manuel José Guerreiro

Presidente da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Torres Vedras

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Prometi regressar ao tema que desenvolvi na passada semana: a criação do euro digital, a autonomia estratégica europeia, os riscos para a banca comercial e cooperativa, as ameaças da Administração norte-americana e a presença de um unicórnio português na revolução lançada pelo BCE de Lagarde.

Começo por reafirmar a minha surpresa face à pouca relevância dada pela comunicação social à aprovação, no Parlamento Europeu, de um sistema de pagamento europeu que, se tudo correr bem e merecer idêntica posição do Conselho e da Comissão, resolverá a nossa dependência em relação à MasterCard, à Visa e a outras empresas americanas no espaço europeu.

Trump não reagiu diretamente, mas nos bastidores diplomáticos e económicos as peças começaram a mover-se. Há ameaças veladas de aumento de tarifas e corte de apoios a quem ousar uma afronta. É o tempo do póquer, em que cada jogador, pacientemente, aguarda pela revelação dos naipes guardados em cada mão.

É necessário, diria obrigatório, entender que não somos apenas nós europeus os únicos que, nesta matéria, se estão a movimentar. Um dos trunfos maiores da diplomacia brasileira, protagonizada pelo presidente Lula, é o modo como tem utilizado, como arma política, o sucesso tecnológico do PIX, sistema de pagamento brasileiro que está a ser analisado pelos membros do BRIC, em que se incluem China, Rússia e Índia. O BRICS Pay, a concretizar-se, permitiria um novo sistema de pagamento que alteraria, como nunca antes, os pressupostos de um mundo financeiro ancorado na força do dólar.

Volto ao euro digital. Há muitas questões por resolver, perguntas que surgem, dúvidas. Há muitos colegas que se amedrontam com a possibilidade de o virtual mudar as regras do jogo e prejudicar a banca comercial e cooperativa. Temem o “big brother” todos têm os nossos dados disponíveis, como se não os tivessem.

Não estou nesse grupo. Sou otimista em relação a todos os processos que agilizem e tornem mais cómodo o acesso das pessoas. O que é visto como um problema pode ser uma boa notícia… a necessidade de modernização aumentará a segurança e o aprofundamento de uma relação de confiança e proximidade que define os cooperativistas há mais de um século.

Seremos o que os outros não conseguem ser, o que já desistiram de ser, teremos melhores condições para executar o que nos distingue. O virtual não é um tema para o futuro, já é presente, amanhã já será passado.

A Europa é um lugar velho, mas o lugar onde ainda se vive melhor, o lugar em que os Direitos Humanos mais são defendidos. Há perigos no caminho, mas oportunidades de construirmos novas esperanças, palavras e fronteiras.

Extraordinariamente relevante a escolha do unicórnio português Feedzai para liderar o mecanismo de proteção contra as fraudes do euro digital. A empresa de Nuno Sebastião, nascida num cubículo em Coimbra, avaliada hoje em mais de dois mil milhões de dólares, está na primeira linha da segurança do futuro do dinheiro europeu, do nosso dinheiro. Não há limite para o sonho quando este é alicerçado em conhecimento, ambição e trabalho. O maior orgulho em tantos portugueses que ousam continuar a ser marinheiros globais e caçadores de fantasmas.

manuel.guerreiro@ccamtv.pt

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