Olhando para os indicadores, parece claro que o consumidor de crédito em Portugal gosta mais de aproveitar benesses imediatas do que pensar no seu empréstimo pelo que ele é: um contrato de longa duração que atravessará muitas dificuldades económicas ou “apenas” de mercado, guerras e perturbações geopolíticas, crises institucionais, pandemia e muitas outras.O cliente bancário nascido ou criado por aqui prefere o crédito à habitação em taxa variável, muitas vezes atraído por guerras de spreads ou momentos de conjuntura muito específica (lembram-se dos anos entre 2015 e 2022?) em que os juros historicamente baixos (até negativos) “criavam” uma prestação da casa baixinha. É por isso que a esmagadora maioria dos contratos de crédito à habitação estão indexados à Euribor (que se forma na sequência de taxas de juro indicadas pelo BCE) e apenas cerca de 6% (seis por cento) destes são em taxa puramente fixa. Para contextualizar, em França mais de 90% destes créditos são em taxa fixa e na Alemanha anda-se perto dessa percentagem. Aqui ao lado, em Espanha, a utilização da taxa variável caiu para perto de 30%. Seremos os únicos “espertos”?. Nos últimos anos, a banca portuguesa deu um empurrão grande rumo aos créditos em taxa mista (fixa nos primeiros anos, habitualmente dois a três, e variável nos seguintes). Quatro em cada cinco novos contratos foram assinados nessa modalidade. Cada cliente bancário sabe de si e das suas contas, das suas possibilidades e ambições quanto aos empréstimos que contrai e não fica bem estar a apregoar esta ou aquela escolha, mas estamos agora prestes a entrar num período em que essa escolha vai ser posta à prova.Num comentário direto às consequências da guerra no Irão, a presidente do BCE, Christine Lagarde, falou num “choque” e, sendo ela uma pessoa que se diz, “por natureza, mesmo muito otimista”, quando está assustada é mesmo melhor dar atenção.Lagarde e os especialistas do BCE estão convencidos de que, se a guerra se prolongar (e os sinais que temos é que vai mesmo prolongar-se) o Banco Central Europeu terá de subir os juros. Os mercados anteveem até três subidas este ano, com a reunião do final de abril a poder ditar a primeira.Em Portugal apenas uma em cada cinco casas estão no mercado de arrendamento, o que significa que a grande maioria dos portugueses está numa casa própria (e muitos deles em parceria com um banco qualquer durante 20 a 30 anos).."Em Portugal, apenas cerca de 6% (seis por cento) dos créditos à habitação são em taxa puramente fixa. Para contextualizar, em França mais de 90% destes créditos são em taxa fixa e na Alemanha anda-se perto dessa percentagem.”.É esta enorme massa de gente que vai ter de enfrentar as subidas de prestação mensal que vimos em 2023, quando os juros escalaram (não em termos absolutos, mas em comparação com as taxas que existiam antes). A esta provável subida junta-se o aumento do preço de quase tudo o resto: combustíveis e energia, e, à boleia destes, alimentação e outros bens essenciais.A guerra no Irão, que começou por uma razão ainda pouco explicada e que evoluiu para um impasse em que o regime iraniano está a planear bloquear indefinidamente o Estreito de Ormuz - e cobra portagem para deixar passar os megapetroleiros -, ainda vai deixar muitas sequelas na economia e nos cidadãos portugueses. E sem um fim previsível à vista, talvez muito para lá de 2026.Ou seja, é em momentos como este que temos de questionar a literacia financeira em Portugal e a capacidade de pensar na carteira a longo prazo, em vez de surfar apenas a espuma dos dias.