Na nova guerra do Médio Oriente - a que vem dos ataques dos Estados-Unidos e de Israel (ou de Israel e dos Estados Unidos) ao Irão -, alguns analistas querem também ver, pelo lado de Washington, uma investida indirecta contra a China.Oficialmente, segundo a Administração-Geral das Alfândegas de Pequim, os principais fornecedores de petróleo ao país são a Rússia, a Arábia Saudita, a Malásia, o Iraque e o Brasil, que totalizam 62% do petróleo importado pela China. A seguir vêm os Emirados Árabes Unidos, Omã, Angola, o Kuwait e o Canadá, responsáveis por mais 24%. E, finalmente, sob a designação de “outros países”, os 14% que faltam. Nem o Irão, nem a Venezuela constam da lista.…E no entanto, várias fontes dão o Irão e a Venezuela como exportadores de petróleo para a China (1.380.000 barris do Irão e 389.000 barris da Venezuela); mas por causa das sanções a que estão sujeitos e da respeitabilidade da República Popular da China, os carregamentos, quer do Irão, quer da Venezuela, aparecem diluídos na rubrica “outros países” ou como sendo de outras origens. Por exemplo, o crude vindo da Malásia surge oficialmente como correspondendo a 1.300.000 barris/dia, o que é superior à produção malaia. Para a firma Kpler, dedicada ao estudo do comércio do petróleo, em 2025 o Irão e a Venezuela forneceram 17% do petróleo importado pela China; ou seja, 87% da produção iraniana e 55% da produção venezuelana seguiram para a China.Para preencher o recente vazio, a RPC conta, para já, com reservas armazenadas, e com a possibilidade de importar mais petróleo da Rússia.Com a captura de Maduro, Washington passou a exercer uma tutela económica sobre Caracas. Em Fevereiro, o Secretário de Estado da Energia americano, Chris Wright, visitou a capital venezuelana para regular os destinos do petróleo; e, depois dos ataques a Teerão, foi a vez de o Secretário do Interior, Doug Burgum, negociar a venda, através da companhia estatal Minerven, de 650 a 1000 quilos de ouro em barra à Trafigura. É um negócio importante numa altura em que o quilo do ouro vale 166.000 de dólares. Entretanto, a compra de petróleo, também efectuada pela Trafigura, alcançou os mil milhões de dólares.No seu habitual estilo, Trump festejou o negócio na rede Truth Social:“The oil is beginning to flow, and the professionalism and dedication between both countries is a very nice thing to see!”A China e a Rússia têm sido relativamente cautelosas e moderadas na reacção à intervenção americana no Irão - nessa matéria, a nova ordem mundial das grandes potências parece estar a funcionar. Mas os críticos à Direita da operação “Epic Fury” têm avisado Trump para ter cuidado no cerco energético à China, lembrando o que aconteceu com o Japão nas vésperas da Segunda Guerra Mundial:Em 1939, o Japão importava dos EUA 80% do petróleo que consumia, o que, nesse tempo de guerra com a China, era vital; mas veio o embargo americano e, em 26 de Julho de 1941, depois do avanço dos japoneses na Indochina, F. D. Roosevelt ordenou o congelamento dos recursos japoneses nos Estados Unidos. Depois do embargo e do congelamento, Washington declarou que só os suspenderia se os japoneses retirassem as tropas da China. E perante o ultimato, Tóquio decidiu tentar a sorte da guerra.Os conservadores críticos da política trumpista e da tentação de uma guerra económica e energética contra a China, lembram ao presidente Pearl Harbour. O autor escreve de acordo com a antiga ortografia