A guerra dos ‘drones’ ganha-se na fábrica

Jorge Silva Carvalho

Analista de Estratégia, Segurança e Defesa

Publicado a

A guerra na Ucrânia ensinou-nos muita coisa, mas a mais incómoda é também a mais simples. O drone não mudou apenas as armas da guerra. Mudou quem se pode dar ao luxo de a fazer. Um aparelho que custa alguns milhares de euros obriga o adversário a gastar milhões para o abater. A aritmética não é sustentável. E é essa aritmética, não a coragem, nem a superioridade tecnológica, que decide uma guerra de atrito.

Convém, porém, olhar para além do engenho. A verdadeira lição desta guerra não é táctica. É industrial. A Ucrânia passou das garagens para milhões de unidades por ano, a aperfeiçoar em semanas aquilo que os nossos sistemas de aquisição certificam em anos. O drone é a arma dos pobres, precisamente porque é barato de produzir e rápido de melhorar. E isso desloca o poder. Passa a estar do lado de quem produz e adapta depressa, não do lado de quem tem a plataforma mais sofisticada.

O próximo salto já não está no aparelho. Está no software. Quem dominar o algoritmo e a produção que o sustenta dominará a próxima década. É aqui que um país pequeno pode competir. Não tanto na massa, mas no nó inteligente, nos sensores, na integração.

A Europa acabou de o admitir. O muro anti-drones que se ergue no flanco leste existe porque alguém fez as contas: responder a engenhos baratos com caças e mísseis de milhões é insustentável. A curva de custo que descrevi há um ano é hoje o problema central da Defesa aérea europeia. Uma Europa que não sabe produzir massa barata e integrá-la depressa é uma Europa que entregou a outros a sua própria Defesa.

Isso traz-nos a Portugal. E aqui há uma boa notícia, porque me recuso a terminar em lamento. Não nos faltam ideias, nem engenheiros. Falta-nos a interface, o mecanismo que transforma inovação em capacidade soberana, esse espaço intermédio onde o utilizador, a engenharia e a indústria trabalham em conjunto.

Há exemplos, e são tanto mais úteis, quanto percorrem caminhos diferentes. O CTI nasceu do Estado. É a Força Aérea, o utilizador que sabe do que precisa, a organizar-se com parceiros privados. O mesmo poderiam fazer a Marinha, o Exército ou as forças de segurança. O CEiiA fez o caminho inverso. Nasceu da indústria automóvel e foi evoluindo até desenhar e entregar à Marinha observatórios submarinos autónomos, os Landers, que aterram no fundo do mar para vigilância acústica. Duas direcções, o mesmo espaço intermédio. E nenhuma delas é fórmula única. Cada sector pode desenhar a sua.

Sobretudo, existe já uma indústria a que vale a pena chamar pioneira. Portugal produz drones, e à sua volta cresceu um ecossistema que merece ser alimentado, dos compósitos aos sensores, dos materiais ao software. É desse tecido, e não de uma encomenda avulsa, que nasce a capacidade soberana. Falta impedir que esse tecido morra entre a bancada e a fábrica.

É isso que estas estruturas resolvem. São parcerias público-privadas, com entidades públicas como sócias e accionistas, sob a forma de empresa sem fins lucrativos. É esse desenho que permite levar um projecto do protótipo à produção. Quem conhece o terreno sabe porque é que, entre nós, essa travessia quase nunca se completa.

Fica por dizer o óbvio. Temos a maior Zona Económica Exclusiva da União e responsabilidades atlânticas que não escolhemos. E é no mar que o drone está a reescrever a dissuasão.

A inovação não se compra. Constrói-se. E já a estamos a construir. Falta levá-la até ao fim e fazê-la chegar onde a geografia não nos deixa escolher.

Escreve sem aplicação do Acordo Ortográfico

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