A grande substituição

Jaime Nogueira Pinto

Politólogo e escritor

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“Une tâche brune sur le Sénat ”. Foi assim que o L’Humanité, o jornal do Partido Comunista, lamentou em primeira página a estreia do Rassemblement National de Marine Le Pen no Senado francês. No melhor pano caía a tâche, e a nódoa que caía sobre o Senado era das piores: era brune, castanha, como as camisas dos SA de Hitler.

O Papa Leão XIV, em visita a França, acabou por minimizar quase todos os outros acontecimentos, mas a eleição de Domingo, 27 de Setembro, não pôde passar despercebida; até porque doeu particularmente à extrema-esquerda comunista, que logo comparou a entrada dos patriotas do Rassemblement no Senado a uma nódoa, a uma hitleriana “mancha castanha” que subitamente caía em democrático pano para o conspurcar.

A Câmara Alta do Parlamento francês é eleita por 93.469 “grandes eleitores”, especialmente seleccionados entre os quadros autárquicos. No Domingo, foram eleitos 178 dos 348 membros do Senado. O Rassemblement, que até aqui não tinha um grupo autónomo no Senado (para o que são necessários uma dezena de senadores) conseguiu quinze, aliado aos republicanos de Eric Cioti.

Como não podia deixar de ser, esta entrada da “extrema-direita” na Câmara Alta do Parlamento foi sentida e apresentada como mais uma acha para a fogueira nazi pelos muitos – da esquerda radical e ao centrão burguês – que, por uma questão de sobrevivência, têm vindo a igualar os movimentos da direita radical ou nacional-popular ao hitlerismo. É a reductio ad Hitlerum, que a pensadora judia alemã Hannah Arendt tão bem explica: basta dizer ou insinuar que o oponente está a argumentar como Hitler ou segundo princípios hitlerianos para pôr fim à discussão.

O L’Humanité sabe disso, por isso retrata a entrada do Rassemblement para o Senado como uma “mancha castanha”, uma mácula nazi no Senado. E parece que aqui em Portugal também o sabem: os manuais escolares para os liceus não deixam de comparar o Estado Novo com o hitlerismo; e, na Ericeira, à porta do hotel onde, no fim-de-semana de 27 de Setembro, se reuniam os Patriotas Europeus, um punhado de “activistas” não deixou de gritar como se lá estivesse ou de lá viesse o próprio Führer (Como era possível que o estabelecimento acolhesse, ou até que a própria vila da Ericeira recebesse, aqueles seres infra-humanos?)

Há, notoriamente, dois pesos e duas medidas em relação aos extremismos: um patriota conservador, defensor da liberdade e da justiça social, tem de explicar perante o tribunal mediático-comentatorial e “os activistas” que não tem nada que ver com Hitler; já a um esquerdista radical ou um comunista ortodoxo, não são sequer lembrados os seus mestres, Mao Tsé-Tung ou Pol Pot, Lenine ou Estaline, responsáveis pelos maiores contingentes de assassinatos políticos e de massacres da História do século XX.

O problema é que os eleitores já não parecem permeáveis a esta propaganda enganosa e ao farisaísmo que encobre. Talvez seja por isso que, na Europa, nos principais países europeus, sejam os partidos que representam o tal nacionalismo popular e identitário que encabeçam as sondagens: Marine Le Pen pode ser a próxima presidente da França; a AfD ultrapassou a CDU-CSU e pode ser o primeiro partido da Alemanha; a coligação centro-direita de Meloni governa a Itália; e Farage e o seu Reform são dados como possíveis vencedores das próximas eleições gerais no Reino Unido.

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