Quando a covid-19 começou por encerrar o mundo, em Portugal acreditámos que seria apenas durante 15 dias – a possibilidade de se decretar Estados de Emergência durante “apenas” duas semanas de cada vez ajudou à ilusão; quando a Rússia invadiu a Ucrânia, em 2022, acreditámos que a guerra terminaria dentro de algumas semanas, e que o gás seria o catalisador desse final.
Numa entrevista à revista Exame, em fevereiro desse ano, Miguel Monjardino, especialista em geopolítica, mostrava-se cautelosamente otimista: “Estou plenamente convencido de que o senhor Putin, se puder, não quer usar a força armada. Quer é uma negociação que obrigue a Ucrânia e ceder naquilo que para ele é fundamental. E que os EUA, através da NATO, garantam a sua segurança na Europa. No fundo, ele quer ser ouvido. Agora tudo dependerá do que irá acontecer nas próximas semanas”.
As semanas passaram a anos, o interlocutor nos EUA mudou – de um experiente e reconhecidamente diplomático Joe Biden passámos para um imprevisível Donald Trump – e nova guerra bateu à porta do mundo, em fevereiro deste ano, quando Israel e os EUA decidiram atacar o Irão na famosa operação Fúria Épica. Trump garantia, então, que a guerra duraria “poucas semanas” – entrámos, entretanto, no sétimo mês de conflito.
O mundo foi assistindo, boquiaberto, ao escalar de um conflito que foi envolvendo cada vez mais países – Arábia Saudita, Líbano… – e que está a mexer, mais uma vez, no xadrez geopolítico. Não é por acaso que Ursula von der Leyen estendeu a mão a Carney, numa iniciativa inédita de trazer para junto da União Europeia o Canadá, com um estatuto especial de aliado do bloco económico.
Aquilo que há uma década era certo está a ser dinamitado a cada semana que passa, não apenas pela irascibilidade de algumas lideranças, mas também pela inércia de outras. A NATO, que ainda deu sinais de alguma vitalidade em 2022, tem-se mantido numa espécie de hibernação, e o mundo parece ter entrado num momento de respiração sustida para aguentar os próximos embates. Só que o problema dos conflitos longos é que eles moem, mesmo quando não matam logo – além de que estes já mataram muito mais do que seria imaginável há quatro anos.
Moem física e psicologicamente e, muito importante, porque afeta tudo o resto, moem a economia. Foi, por isso, sem surpresa que assistimos às mais recentes declarações do CEO da gigante petrolífera Chevron, Mike Wirth: “A grande crise global dos combustíveis já chegou”, disse.
Durante um evento numa universidade, o executivo avisou quanto ao facto de as reservas estratégicas de petróleo estarem totalmente exauridas, enquanto já foram esgotados todos os mecanismos de prevenção possíveis. A escassez de petróleo é real e os preços vão continuar a aumentar e a dificultar a vida dos consumidores – dos EUA à Europa, os preços não param de bater recordes e não há sinais de alívio.
Em Portugal, apesar dos esforços do Governo, que tem aumentado o apoio aos consumidores, em termos de combustíveis, a fatura já vai alta: desde o início da guerra iniciada pelos EUA no Irão, os condutores do país gastaram 1,16 mil milhões a mais para se deslocarem de carro, segundo contas do jornal Eco - um valor que teria sido de 1,37 mil milhões sem a redução do ISP e que, ao contrário do que alguns apregoam, não está a ser compensado pelo IVA. Os cofres do Estado estão, para já, a perder.
No entanto, os aumentos não se ficam pelos combustíveis. À boleia deles, sobe o preço dos alimentos – a carne de novilho disparou 117% desde 2022, o bacalhau graúdo custa mais 89% e a pescada aumentou 104% –, aumentam os preços das viagens, da restauração, da produção industrial, dos juros…a crise é sentida por empresas e consumidores a cada dia que passa e as declarações de Wirth só confirmam aquilo que todos sentimos diariamente: há uma grave crise à nossa porta e, por mais que não a queiramos deixar entrar, ela tem-se conseguido esgueirar por todas as frechas e falhas na construção.
E se todas as medidas tentadas até agora estão a falhar, talvez esteja na hora de inovar. Quando, em 1997, a Coreia do Sul recebeu um resgate de 58,4 mil milhões de dólares por parte do FMI, porque foi fortemente atingida pela grande crise asiática, o governo viu-se forçado a fazer uma transformação profunda do seu modelo económico: ao invés de reconstruir apenas os grandes conglomerados industriais que tinham sustentado o país até então, decidiu investir em força em indústrias culturais e tecnológicas, por exemplo.
Se, hoje, o fenómeno do K-Pop está estampado em T-shirts de todo o mundo e movimenta milhões de euros, é bom recordar que o investimento começou há três décadas. Talvez esteja na altura de Portugal começar, finalmente, a pensar a longo prazo, ao invés de continuar a tentar sobreviver apenas ao próximo ciclo eleitoral. Até porque os eleitores estão mais do que dispostos a acolher mudanças. Resta-nos esperar que tenham como optar pelas mudanças certas.