A gestão do silêncio

Jorge Silva Carvalho

Analista de Estratégia, Segurança e Defesa

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Quando se fala de guerra de informação, o público imagina quase sempre alguém a gritar uma mentira. A imagem é incompleta. A forma mais eficaz de gerir percepções raramente é o berro ou a verborreia: é o silêncio calculado, o eufemismo oportuno, o volume baixado no momento certo. Dois casos desta semana mostram-no, e do lado que menos se aponta.

Primeiro, Fairford, a base inglesa de onde partiram os bombardeiros americanos que atacaram o Irão. Na noite de domingo, cinco homens foram detidos nas imediações, com gasolina em três carrinhas, e a polícia admitiu investigar o envolvimento de um Estado estrangeiro. Washington falou logo, e alto, de um “ator estrangeiro”. É aproveitamento, mas de um facto que existe.

Gerida, e com habilidade, foi a reação britânica. Os suspeitos foram detidos primeiro ao abrigo da lei dos explosivos e só depois da antiterrorista, que era o enquadramento óbvio e permitiria mantê-los sem acusação até catorze dias. Saíram sob fiança em menos de vinte e quatro horas. O governo convocou o gabinete de crise, mas baixou o tom: o ministro da Defesa pediu que não se especulasse, e só três dias depois o primeiro-ministro, Andy Burnham, admitiu, discretamente, “fortes indícios” de participação iraniana. No dia seguinte foi detido um sexto suspeito, com dupla nacionalidade britânica e iraniana.

A prudência de uma investigação em curso explica parte deste tom, não o explica todo. Apontar o Irão empurraria a opinião pública para a confrontação, que a base trabalhista rejeita. E o chefe da diplomacia, Ed Miliband, acabara de ser acusado de brandura por ter alegremente cumprimentado o homólogo iraniano na ONU sem se encontrar com nenhum responsável israelita. Não se mentiu: baixou-se o som de um facto incómodo, à espera de que a atualidade o levasse. Araghchi, esse, aproveitou a fiança dos suspeitos para troçar da incoerência de Londres. A mesma guerra, jogada por todos.

O segundo caso é o do voo da flydubai que, a 30 de Setembro, seguia do Dubai para Telavive com mais de uma centena e meia de israelitas a bordo. O co-piloto, omani, esfaqueou o comandante e tentou despenhar o avião. Só a coragem do comandante e dos passageiros evitou quase duas centenas de mortos. Israel fala de radicalização islamista; os próprios Emirados, de onde o avião partiu, chamaram-lhe “um perigoso ato terrorista”. Muitos jornais ocidentais preferiram “altercação entre pilotos”. Quando Abu Dhabi é mais claro do que a imprensa europeia, alguma coisa está errada.

Convém dizer o que costuma ficar implícito. Há em boa parte da comunicação social ocidental um enviesamento claro contra Israel, que nasce menos da mentira do que da narrativa, da popularidade e da agenda. A antipatia por Netanyahu e a Palestina erigida em bandeira produziram uma dupla medida: escrutina-se ao milímetro cada acto israelita e trata-se com luvas um regime teocrático e repressor, que enforca às centenas e dispara sobre os próprios cidadãos. Criticar um governo de Israel é legítimo. O problema começa quando essa crítica se converte em complacência para com quem é incomparavelmente pior. É esse desequilíbrio que explica o eufemismo sobre o voo de Telavive e o conforto com que Londres deixou arrefecer a pista iraniana.

Disciplina de método, ainda assim. O motivo do ataque ao avião está formalmente por apurar, e a nacionalidade de um detido não prova a mão de Teerão. Mas há perguntas que não dependem do motivo. Como chegou à rota de Telavive um co-piloto com menos de um ano de casa, nacional de um país sem relações diplomáticas com Israel, cujo comportamento já intrigava colegas? É uma questão de procedimentos, e cabe aos Emirados responder-lhe.

Habituámo-nos a desconfiar de quem grita, e fazemos bem. Mas a manipulação mais fina, nas democracias maduras, faz-se por omissão e por eufemismo: o que se escolhe não dizer, dizer tarde ou dizer com outro nome. O cidadão livre tem de ler os dois registos, o que se amplifica e o que se abafa, e perguntar sempre quem beneficia com a versão que lhe servem. Porque em guerra de informação a frase mais perigosa não é a mentira ruidosa. É a verdade que alguém, com todo o cuidado, deixou cair em surdina.

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