Fora de Gaza e da Ucrânia, quantas crises humanitárias conseguiria nomear neste momento? Provavelmente poucas. E não porque não existam.Existem milhões de pessoas deslocadas, em situação de fome extrema ou a viver em zonas de conflito no Sudão, na República Democrática do Congo, no Burkina Faso, na República Centro-Africana, em Moçambique,ou no Haiti. Mas estas crises raramente chegam até nós. E quando chegam, permanecem apenas o tempo suficiente para serem substituídas pela próxima notícia urgente.Vivemos numa era de informação permanente, mas também de memória curta. Recorda-se da chamada “crise dos refugiados” que dominou o debate europeu em 2015? Nunca desapareceu em muitos países e contextos geográficos, pois cerca de 118 milhões de pessoas encontram-se refugiadas ou deslocadas à força em todo o mundo, devido a guerras, perseguições e violência. Nós é que deixámos de olhar para elas.A distância, por si só, não explica este fenómeno. Mas é um bom ponto de partida. Quando pensamos nestas emergências humanitárias, tendemos a colocá-las na categoria do "algures em África" ou "lá para longe". A distância geográfica transforma-se, muitas vezes, em distância emocional. O sofrimento que sentimos próximo mobiliza-nos, o sofrimento distante torna-se mais fácil de ignorar.A forma como reagimos ao sofrimento dos outros tem sido estudada pela psicologia. O professor e psicólogo Paul Slovic argumenta que o nosso sistema emocional tende a privilegiar histórias marcantes que estão próximas de nós e são fáceis de imaginar. A distância, neste sentido, não é apenas uma questão de quilómetros. É também uma questão de familiaridade. Quanto mais facilmente conseguimos imaginar a vida de alguém, compreender o seu contexto ou reconhecer aspetos da nossa própria realidade na sua experiência, mais provável é sentirmos empatia.Quando a guerra na Ucrânia começou, uma frase repetia-se frequentemente nos meios de comunicação e nas redes sociais: "Estas pessoas são como nós." São europeias, vivem em cidades modernas, têm empregos, estudam e constroem as suas vidas como qualquer outro cidadão europeu. Se destacamos que umas pessoas são "como nós", estamos implicitamente a sugerir que outras são diferentes.Esta perceção tornou-se ainda mais evidente quando muitos comentadores começaram a comparar a resposta dada aos refugiados ucranianos com a forma como, anos antes, tinham sido recebidos refugiados provenientes da Síria, do Afeganistão ou de vários países africanos. A comparação não procura diminuir a solidariedade para com os ucranianos, mas questionar por que é que a proximidade geográfica, cultural ou histórica parece influenciar a intensidade da nossa empatia.Não estamos necessariamente a falar dos decisores políticos ou dos grandes financiadores internacionais. Até porque entram frequentemente em jogo interesses políticos, económicos e diplomáticos que vão muito além destas questões. Falamos também de todos nós. Afinal, a atenção pública influencia a cobertura mediática, ajuda a moldar a vontade política e pode determinar o nível de recursos mobilizados para responder a estas emergências. Aliás, o conhecido “efeito CNN” mostrou precisamente como a cobertura mediática pode pressionar governos e organizações internacionais a agir. E isso tem-se refletido, concretamente, nos números de financiamento dos apelos humanitários internacionais.A isto junta-se ainda aquilo que a psicologia descreve como “fadiga da compaixão”, um conceito frequentemente associado aos trabalhadores humanitários, mas que também se aplica a nós, cidadãos. Quantas vezes ouvimos que já não conseguimos ligar a televisão sem sermos confrontados com notícias pesadas e negativas?Vários estudos sugerem que a nossa capacidade de sentir empatia não é ilimitada. À medida que aumenta o número de pessoas afetadas e o sofrimento se prolonga no tempo, muitas pessoas acabam por regular o desconforto emocional desviando a sua atenção do problema. A atenção e o envolvimento emocional diminuem, não necessariamente porque deixamos de nos importar, mas porque a exposição contínua ao sofrimento se torna difícil de sustentar.Perante tudo isto, é legítimo perguntar: o que podemos realmente fazer? A resposta pode parecer modesta quando comparada com a responsabilidade dos governos. Mas a solidariedade internacional não começa apenas em decisões políticas. Começa na atenção que damos a estas crises, nas conversas que temos nas nossas vidas diárias, nos textos que escrevemos, nas organizações que apoiamos e na recusa em aceitar que algumas vidas merecem menos visibilidade do que outras. Isso faz parte do nosso contributo individual para o bem comum, do qual fazemos parte, enquanto cidadãos que vivem num mundo interdependente e interligado.Por uma crise acontecer longe não a torna menos humana. Por uma pessoa falar outra língua ou ter uma cultura diferente da nossa não significa que mereça menos empatia. É verdade que pode ser difícil viver constantemente exposto a notícias de guerra e sofrimento. Mas se, para nós, é desconfortável, muito mais difícil é vivê-las todos os dias.O silêncio nunca protegeu ninguém. As crises humanitárias esquecidas não são esquecidas por quem as vive e que sente os efeitos diários nas suas condições concretas de vida, na (in)segurança ou na falta de acesso a serviços essenciais, como a Saúde e a Educação. São esquecidas por quem deixou de olhar para elas. Parceria DN/Clube de Lisboa