A França insubmissa

Jaime Nogueira Pinto

Politólogo e escritor

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A França vive agora entre dois pesadelos: a dívida pública e os protestos de rua. A comunicação social que temos não nos mostra estas “revoltas estudantis” em todo o seu esplendor: os incêndios de lixeiras e de edifícios escolares (alguns com gente lá dentro), a vandalização do espaço público, as agressões a professores e a polícias, entre todo um folclore “anti-racista” e “anti-fascista” feito de hijabs e bandeiras da Palestina, adornado aqui e ali pela eventual foice e martelo e agraciado com a miraculosa aparição de Greta Thunberg, eterna criança birrenta a quem “roubaram a infância”, santinha de altar de toda a indignada “causa de esquerda”, incansável entre flotilhas e arremessos de pedras, e de objectos incendiários para “salvar o planeta”.

Porquê este cuidado extremo nas imagens divulgadas? Porque, além de a reivindicação ser justa – uma mais que notória falta de Educação –, os distúrbios não podem ser atribuídos à extrema-direita; logo, não constituem, nem podem constituir, uma “ameaça à Democracia.”

Chantal Delsol, em Le Figaro, compara estes estudantes liceais com os universitários do Maio de 68, que “imbuídos das barbaridades de Mao ou de Trotsky” ainda eram “capazes de recitar de cor Aragon e Lenine”, talvez por terem frequentado “a escola republicana”. Os de hoje, educados numa escola marcada pelas teorias sociológicas de Bourdieu, limitavam-se a repetir “banalidades e palavrões”.

Para Pierre Bourdieu (1930-2002), eram as classes dominantes que inspiravam “a cultura” e a usavam como instrumento de domínio. Mas, ao contrário de Gramsci, que propunha o uso da cultura para desafiar o domínio alheio, os discípulos de Bourdieu concluíam que, se a cultura era instrumento de domínio, então o melhor era acabar com ela, suprimindo o “saber e o mérito” como padrões de hierarquia e progresso social, rumo à destruição da ordem social inibidora do igualitarismo.

Em França há uma força política pronta a usar as “sementes de violência” que levam adolescentes a atirar gasolina a professores que se propõem falar com eles: La France Insoumise, o partido de Jean-Luc Mélenchon, o pseudo-Robespierre ou pseudo-Lenine, como já vimos outros, que lidera esta nova esquerda arruaceira.

É o partido de Mélenchon que alimenta as campanhas de saneamento de jornalistas de direita, que se serve da “rua muçulmana”, ou se submete a ela, que prega “uma nova França” e “novas classes populares” onde já não tem lugar a “classe operária” tradicional, que há muito abandonou o Partido Comunista e se voltou mais para a “extrema-direita”, em busca de fronteiras que a defendam.

Esta nova extrema-esquerda já entendeu que não vai chegar ao poder através de um processo eleitoral democrático. Por isso, Mélenchon vai tentar ser o candidato da Esquerda às presidenciais (e não será o moderado e cinzentão Raphael Glucksmann que lhe fará sombra), jogando num aumento de popularidade que, não fazendo dele o vencedor, poderá entroná-lo como grande mobilizador de uma “rua” pronta a combater o “perigo fascista” e a “extrema-direita” sem olhar a meios.

Para isso, conta com alianças e aliados, por ideologia ou interesse táctico. E encontra para esse grande combate do Bem contra o Mal uma infinidade de mobilizáveis – nos media, onde a par do oportunismo corporativo há também maniqueístas particularmente sensíveis à “beleza de matar fascistas”, na marginalidade político-delinquente das periferias perigosas e no fundamentalismo religioso de outros Livros Santos.

Para já, à mão, estão os miúdos dos liceus.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

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