A força do francês… e a do português

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Como se mede o poder de um país? Uns dirão que o importante é o arsenal, sobretudo se incluir armas nucleares; também haverá quem destaque o peso do PIB; e igualmente ouvir-se-ão vozes a valorizar a população e o território. Ora, em todos estes campos a França marca pontos: tem Forças Armadas modernas e armamento nuclear, é a sétima maior economia mundial e mesmo na questão da população e do território emerge como o maior país da União Europeia e o segundo mais populoso. Contudo, a influência cultural é também um trunfo das nações e, aí, a França é uma superpotência, não só tradicionalmente, como ainda hoje, como mostram os mais recentes dados da Organização Internacional da Francofonia (OIF), que colocam agora o francês como a quarta língua mais falada no planeta e a segunda mais aprendida por falantes não-nativos.

Sem surpresa, o pódio em termos linguísticos continua a ser ocupado pelo chinês, pelo inglês e pelo espanhol. A primeira conta decisivamente com os falantes nativos para a liderança, pois apesar da proliferação de delegações do Instituto Confúcio, incluindo em Portugal, progride muito devagar como segunda ou terceira língua, dada a dificuldade de aprendizagem dos ideogramas. Pelo contrário, o inglês, muito fortemente, ganha cada vez mais terreno como língua franca global. E mesmo o espanhol é língua de estudo para muitos.

O francês "será falado por 396 milhões de pessoas, com uma subida substancial desde 2022 dada a inclusão (nova metodologia) das crianças de 6 a 9 anos que frequentam a escola nos países onde o francês é língua oficial de ensino".
O francês "será falado por 396 milhões de pessoas, com uma subida substancial desde 2022 dada a inclusão (nova metodologia) das crianças de 6 a 9 anos que frequentam a escola nos países onde o francês é língua oficial de ensino".Global Imagens

No grupo das línguas mais faladas no mundo, depois do trio da frente e do francês, seguem-se o árabe, o hindi, o bengali, o russo, o português e o indonésio. Os cálculos para o número de falantes totais são sempre discutíveis, e portanto a hierarquia das línguas varia segundo as fontes, mas confiando no site Etnologue serão cerca de 270 milhões os que falam português.

Já o francês, mas segundo as novas estimativas da OIF, será falado por 396 milhões de pessoas, com uma subida substancial desde 2022 dada a inclusão (nova metodologia) das crianças de 6 a 9 anos que frequentam a escola nos países onde o francês é língua oficial de ensino.

O relatório foi apresentado na cidade do Quebeque, na província homónima canadiana, um bastião do idioma francês na América do Norte, mas o grande crescimento do número de falantes vem de África, de países como a República Democrática do Congo, o gigante que já se chamou Zaire.

Além do crescimento por via da demografia pujante de África, o francês cresce também por aprendizagem fora do espaço francófono, e nessa matéria só fica atrás do inglês. Calcula-se que 90 milhões de pessoas falem francês mesmo não pertencendo ao mundo francófono, segundo um recente artigo publicado no jornal Figaro, ao qual fui buscar o essencial dos números acima referidos.

Também o português cresce, sobretudo graças a África. A grande maioria dos falantes do português como língua materna continua a ser do Brasil, país com mais de 210 milhões de habitantes, mas Angola tem o maior potencial de crescimento de falantes. As projeções demográficas das Nações Unidas apontam para 500 milhões de habitantes de países lusófonos até 2100, o que significaria uma duplicação do número de falantes.

"(...) Que dizer do valor para Portugal de ter uma língua falada globalmente por umas 27 vezes mais pessoas do que a população do país?"

Uma política cultural e de promoção da língua acresce poder aos países. Cria laços emocionais que se podem refletir no turismo e no consumo de bens. A França sabe-o muito bem e a rede de Liceus Franceses e de Alianças Francesas no mundo é uma aposta estratégica.

Portugal, através do Instituto Camões e outras instituições nacionais, também em parcerias com o Brasil, Angola e outros países, deve esforçar-se por expandir a língua, não só junto dos luso-descendentes, mas também para outros públicos (na China, tem acontecido muito, graças ao atrativo económico da vasta esfera lusófona). E também apoiar países lusófonos, como Timor-Leste, a manterem a aposta na língua.

Se os franceses têm razão para celebrar que o seu idioma seja falado por cerca de seis vezes o número de habitantes da França, que dizer do valor para Portugal de ter uma língua falada globalmente por umas 27 vezes mais pessoas do que a população do país? E, tal como o francês, o português é uma língua pluricêntrica, falada em vários continentes, o que lhe confere vantagem clara como língua de comunicação global sobre línguas muito faladas, mas confinadas a um país ou uma região.

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