A Figura do Dia. Salazar

Luís Osório

Escritor, jornalista e cronista

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Salazar regressara do hospital contra todas as expetativas. Américo Tomás preparara-lhe o funeral e nomeara o substituto, Marcello Caetano. Ninguém imaginou que o homem resistisse a um derrame cerebral que os médicos acreditaram ser fatal, mas acordou do coma e perguntou pelos ministros.

Tinham passado mais de quatro meses desde o internamento no Hospital da Cruz Vermelha, quarto número 68, mais de 100 dias fechado e sem fazer ideia de que o país já aplaudira o novo Presidente do Conselho, mais a “Primavera” que jurou trazer.

Perguntou pelos ministros e disse que não havia tempo a perder. Precisava de voltar a São Bento o mais depressa possível.

Regressou para um enorme quarto transformado em bunker. Tinha cama, enfermeiras e, numa divisão ao lado, uma mesa de trabalho que Maria, a sua empregada, se encarregou de providenciar.

"Ninguém imaginou que o homem resistisse a um derrame cerebral que os médicos acreditaram ser fatal, mas acordou do coma e perguntou pelos ministros."
"Ninguém imaginou que o homem resistisse a um derrame cerebral que os médicos acreditaram ser fatal, mas acordou do coma e perguntou pelos ministros."Arquivo DN

Chovia lá fora, era março ou abril de 1969, quando Salazar reuniu pela primeira vez os seus homens num Conselho de Ministros que ficou para a história.

Esse e os outros, semanalmente feitos, onde Franco Nogueira, Antunes Varela, Hermano Saraiva e quase todo o Governo despachou com Salazar como se ele continuasse a mandar do Minho até Timor.

De vez em quando, o professor de Santa Comba perguntava por Marcello Caetano, os seus ministros falavam de uma longa viagem que fizera ao Brasil… ninguém ousou contar-lhe que Marcello, que nunca o visitou, estava na mesma casa, a dois ou três passos da mais gigantesca farsa da História de Portugal. Uma mentira que durou um ano, até à morte definitiva do ditador.

Um bom dia das mentiras!

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