A Figura do Dia. Patópolis

Luís Osório

Escritor, jornalista e cronista

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Sempre que o mundo se incendiou, existiu quem inventasse sonhos novos. É absurdo, para os homens da guerra, quando surge a palavra “sonho” associada a novas ideias e falsas esperanças. Nos apocalipses, os que mandam para a morte não querem realidades alternativas ou hipóteses de revolta, precisam de carne fresca para alimentar a fome de poder.

O mundo caminha para um abismo. Em todo o lado há milhões de pessoas que legitimam loucos pelo voto. Não é isso que me surpreende, foi sempre assim. O que não foi sempre assim é a ausência de quem nos convença de que há um sonho para ser sonhado. Já não existem existencialistas, neorrealistas, surrealistas e abjecionistas. Cada um está por si e a navegar à volta do seu umbigo – mesmo os que têm muito talento.

Já nem existe quem invente uma nova cidade, como Carl Barks, em 1944. Em plena 2.ª Guerra Mundial, quando na América se discutia a mortandade e ninguém sabia com o que contar, o desenhador fez nascer, com o talento de um lápis e de uma borracha, a cidade de Patópolis, onde os amigos das crianças estavam protegidos num mundo organizado e em ordem.

Em Patópolis "tinham a baía, uma colina, onde, no alto, vivia a caixa-forte de Patinhas, o rio Tule, calor no verão e neve no inverno e a quinta da Vovó Donalda."
Em Patópolis "tinham a baía, uma colina, onde, no alto, vivia a caixa-forte de Patinhas, o rio Tule, calor no verão e neve no inverno e a quinta da Vovó Donalda."D.R. / Disney

Tinham a baía, uma colina, onde, no alto, vivia a caixa-forte de Patinhas, o rio Tule, calor no verão e neve no inverno e a quinta da Vovó Donalda. Em Patópolis até os Metralhas eram boa gente – ladrões com uma moral.

Precisamos urgentemente que alguém nos desenhe um novo lugar. Já não para as nossas crianças, mas para nós. Com tudo na ordem, com gente confiável, um rio, árvores e estações previsíveis. Talvez seja pedir muito.

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