Nelson Oliveira ocupa um lugar único na história do ciclismo. Não por ser um vencedor ou por ter ganhado etapas nas grandes provas. Não por alguma coisa épica ou por dizer coisas que marquem ou sejam polémicas, ou por ter uma vida com tragédias ou que nos façam rir. Nada de nada.É um excelente contrarrelogista, mas também não é isso, é outra coisa. Nelson participou nove vezes no Tour, dez na Vuelta e quatro no Giro, sem nunca desistir.É o símbolo de uma qualidade hoje desvalorizada: o que se sacrifica para que outros possam brilhar, o que sofre até ao fundo das entranhas pela honra de ir até ao fim, o que não se importa de passar ao lado das condecorações em nome do espírito de equipa..Nenhum português, nenhum dos nossos grandes ídolos, trepou tantas vezes o Alpe D’Huez, o Tourmalet, as Dolomitas ou o Alto de Anglirú sem desistir. Nenhum aguentou tantos dias seguidos em cima da bicicleta, em sofrimento e sem o afrodisíaco de estar a lutar para ganhar.O que quero dizer com isto? Nada de extravagante, apenas o óbvio. Que na vida todos temos o nosso papel, até os que desistem à primeira contrariedade — enquanto estiverem vivos poderão sempre inverter o destino.Aplaudimos vencedores e esquecemos os que se transcendem para que a máquina funcione. Gente de trabalho, que dá o que tem, que é talentosa, que sobe montanhas sem aplausos e reconhecimento público.Como a pessoa que revê esta crónica ou a Carla Silva Lopes, que dirige a secretaria de redação do DN e que todos os dias recebe em primeira mão a Figura do Dia.