A Figura do Dia. O único português que pode voltar a ganhar o Nobel

Luís Osório

Escritor, jornalista e cronista

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Gonçalo M. Tavares ganhou um dos mais prestigiados prémios europeus da literatura. O Formentor de las Letras foi criado por iniciativa de Gaston Gallimard e Guido Einaudi, em 1961.

Beckett e Borges levaram a estatueta e incendiaram Madrid com os seus discursos, o que levou o ditador Franco à loucura e ao cancelamento. Só em 2011 se criaram as condições para voltar a distinguir escritores capazes de nos virar do avesso. Gonçalo acaba de se juntar a gigantes da dimensão de Javier Marias, Carlos Fuentes ou László Krasznahorkai.

Conheci-o há muitos anos. Ainda não editara qualquer livro, mas já andava pela rua distraído com o mundo de dentro. Queria fazer coisas, inventar palavras, decompor o alfabeto como se dissecasse um cadáver ou a própria existência.

Gonçalo M. Tavares, escritor galardoado com o Prémio Fomentor de las Letras.
Gonçalo M. Tavares, escritor galardoado com o Prémio Fomentor de las Letras.Filipe Amorim / Arquivo Global Imagens

Começou a escrever e a publicar livro atrás de livro, histórias atrás de histórias, uma biblioteca inteira com personagens que percorrem a condição humana, o pensamento e a literatura.

Gonçalo é o único português que pode voltar a conquistar o Nobel da Literatura. A sua escrita é uma chave de entendimento do mundo. Por vezes, difícil. Sempre pouco óbvia e nunca facilitadora da viagem do leitor a quem pede um compromisso total.

Neste tempo conturbado é um herege pois não desiste de pensar fora da linha do horizonte em que sobrevivemos.

Quando nele penso regresso sempre ao seu Jerusalém, onde uma mulher vê almas e um médico acredita que a pode salvar (e ao mundo) se descobrir o código secreto do sofrimento.

É simplesmente único, um labirinto humano.

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