A Figura do Dia. O meu lugar preferido de menino pobre

Luís Osório

Escritor, jornalista e cronista

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Tinha 14 anos e estava esfomeado quando o pai me contou que a sua morte era uma questão de dias.

Acabáramos de pedir dois bifes na Portugália, o meu lugar preferido de menino pobre. Passou-me o apetite, mas se na altura me ocorresse que o pai viveria mais quase 30 anos, teria comido o lombo com o molho que acreditava ser a prova da existência de Deus.

O meu pai tinha sida. Em 1985 os diagnósticos eram parágrafos, o fim era certo. Menos para ele e para uns quantos, não, muitos no mundo inteiro. Sempre que falámos a sério era ali, na Portugália da Almirante Reis, o lugar onde o império nasceu há 100 anos.

"Sempre que falámos a sério era ali, na Portugália da Almirante Reis, o lugar onde o império nasceu há 100 anos."
"Sempre que falámos a sério era ali, na Portugália da Almirante Reis, o lugar onde o império nasceu há 100 anos."Reinaldo Rodrigues / Arquivo DN

Um cirurgião da Barquinha quis montar uma fábrica de cerveja que batizou como Germânia. A prova do seu pragmatismo foi a limpeza com que mudou de nome — após a Primeira Guerra os alemães tinham menos popularidade do que a EMEL e o dr. Barral Filipe não hesitou em cortar o mal pela raiz: a fábrica passou a Portugália.

Em junho de 1925, para sublimar o calor, montou-se um balcão onde se bebia cerveja e comiam-se petiscos, os bifes vieram depois. E eu, um século depois, sozinho quase sempre, continuo a ir.

Peço o que ele gostava e recordo a avó Alice, a sua mãe, mais as tias e as festas em que ocupávamos um cantinho do andar de cima.

Depois chegava a casa e contava à minha mãe o que era comer ali, num lugar bonito, com um bife que nunca prováramos, com batatas fritas que não eram oleosas e um molho impossível de explicar.

Acabei por nunca a levar ao lugar onde o meu pai continua a ir comigo, tanta pena por isso.

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