Ainda não pensa ou tem sentimentos. Não festeja vitórias ou sofre com prisão de ventre. E não é capaz de amar, de se comover ou entrar em pânico. Mas já corre os 100 metros mais depressa do que Usain Bolt ou a meia-maratona mais velozmente do que os melhores etíopes, quenianos ou o nosso Carlos Lopes.
Os aplaudidos especialistas chineses de robótica não têm qualquer dúvida quanto à utilização do advérbio “ainda”: brevemente o que não é hoje possível será a mais pura normalidade.
Em Pequim, num majestoso pavilhão tecnológico a rebentar pelas costuras com académicos e estudantes, juntaram-se dois mil robots humanoides. Uma espécie de Jogos Olímpicos de máquinas, que um dia serão capazes de chorar, de beijar, de morrer nas guerras, de fazer o trabalho nas fábricas, de limpar a nossa casa, de ocupar a nossa cama, as nossas ruas, salas de cinema, centros comerciais, espetáculos, bibliotecas, redações e parlamentos.
Há poucas ou nenhumas dúvidas entre os engenheiros do Império do Meio: não faltará muito para não distinguirmos pessoas de robots e faltarão menos anos para os podermos comprar e fazer deles o que desejarmos… antes de eles nos pedirem em troca o que ninguém ainda ousa imaginar.
Se observou as imagens do novo herói, se sorriu ou chamou os seus filhos para verem Lightning, o novo herói das pistas, não se divirta em excesso com o seu inalcançável recorde de velocidade. Talvez seja mais prudente inscrever os miúdos numa escola de mandarim e aprender a comunicar na língua dos robots. Quem sabe se não será poupado no dia do juízo final.