Batizei dois filhos, os mais novos. Foi uma cerimónia simples, mas bonita. O padre recebeu-nos à porta da Igreja de São João Baptista, no Lumiar. Disse palavras e fez-nos dizer palavras. Há muito tempo que não assistia a uma missa, rezei para dentro uma oração só minha, comovi-me com a água na cabeça do Afonso e da Benedita e com a homília do Padre Francisco Rodrigues. Senti-me culpado por só saber o Pai Nosso e tropeçar no Credo. Acredito na transcendência, sinto amor pela mensagem de Jesus, mas tocou-me a dificuldade de me oferecer ao Mistério por estar tão embrenhado na superfície dos dias..O Padre Francisco, durante dez anos administrador provincial dos Jesuítas em Portugal, licenciado em Filosofia e Teologia, em Berkeley, um homem que arriscou a vida em prisões mexicanas e que agora, depois de ter ocupado lugares de poder, recebe as pessoas no seu gabinete minúsculo como se elas fossem únicas - sem condescendência, sem as infantilizar ou as demitir de pensar.Quando me perguntou, segundos antes do batismo, se renunciava ao Diabo, respondi: “Sim, renuncio.” A promessa provocou-me a vontade de fazer mais, de ser mais, de lutar por um jardim que possa voltar a ser florido.É um combate de todos, mesmo dos que não acreditam em Deus, tropeçam no Credo ou inventam orações próprias como se existisse um telefone direto para o que não compreendem. Os meus filhos foram batizados no dia em que um luminoso padre jesuíta provou que o sorriso é a principal arma dos que aceitam a humildade como condição.